A Pandemia e a Crise Intelectual Total da Esquerda em Portugal

A esquerda durante a pandemia tem feito pouco mais do que gozar e tentar reprimir todo e qualquer debate à volta da maneira como os Estados se têm aproveitado da mesma para reforçar a sua capacidade de aplicar o poder de forma arbitrária e injusta

A esquerda está a passar uma profunda crise intelectual. Esta crise não vem de agora, mas não somente se aprofundou, como se tornou particularmente evidente durante a pandemia. O PCP tem talvez sido das poucas excepções a esta regra.

O facto de uma parte substancial da esquerda ver o Jovem Conservador de Direita como sendo uma referência intelectual superior e mais fidedigna do que a Raquel Varela demonstra bem o nível e a natureza dos debates que a esquerda gosta de ter, ou neste caso, de não ter, e sobretudo, serve de aviso para a grave crise de intelectualidade e seriedade (ou falta dela) que estamos a passar. O primeiro é uma página de sátira, a segunda é uma das historiadora do trabalho reconhecida mundialmente assim como a impulsionadora de importantes batalhas políticas recentes em Portugal, como por exemplo, mas não só, a luta dos estivadores.

Sim a Raquel Varela diz coisas que podem nem sempre ser acertadas, mas pelo menos tenta ser uma voz irreverente, pensada, informada, contra-corrente. Tem um currículo infinitamente superior, tanto no ativismo de terreno, como académico, à grande parte dos seus detractores. E quem são, e como comunicam, a grande parte dos seus detractores? Com piadas, gozo, e cinismo. Na maioria dos casos, não têm mais nada.

E qual foi o grande “crime” da Raquel Varela para merecer tal tratamento pela parte de tantos ativistas de esquerda? Sejamos sinceros. O crime dela são só dois, mas os seus detractores não o conseguem dizer diretamente- aí está, escondem-se por detrás de piadas e sarcasmo- primeiro, ela consegue chegar a um grande público, em vez de estar presa em pequenas bolhas de activistas que pensam todos da mesma forma e que são pouco mais do que salas de eco em que todos se dão palmadinhas nas costas como prémio pela capacidade de pensar em grupo, ou seja, a “capacidade” de não pensar. Segundo, e isto é ainda mais chocante- o grande crime dela é não ter aderido ao patético consenso que se gerou na grande parte da esquerda quanto à pandemia, que eu só consigo descrever como um servilismo, aceitação incondicional e acéfala das boas intenções do Estado assim como uma postura genericametne anti-intelectual. Vejo isto todos os dias- supostos “revolucionários” que hoje em dia adoptaram a linha política de que qualquer pessoa que sequer implicitamente acuse o Estado de estar a usar a pandemia e as ações de mitigação da mesma a seu favor, tendo outra coisa que não a saúde pública no seu interesse, é “maluco”, adere a “teorias da conspiração”, e claro, o último insulto que está a ser usado para tentar abafar qualquer tipo de debate sério- “negacionista”.

É caso para dizer: “Revolucionários que insultam e gozam com todos os que questionam as boas intenções do nobre Estado, o qual, coitadinho, só quer o nosso bem e proteger a nossa rica saúde, uni-vos!”

Existem negacionistas efectivamente. Eu não sou um deles. Acredito que o vírus existe, e que é perigoso. Aliás até porque eu próprio já o apanhei. Mas agora vamos pensar um pouco- de que forma é que o facto do vírus ser real e perigoso nos leva necessariamente a adoptar uma posição que nega à partida qualquer possibilidade de aproveitamento político pela parte dos Estados, ou outras entidades? De forma nenhuma. Pelo contrário, é precisamente a natureza perigosa do vírus que permite usar a pandemia para introduzir mecanismos de vigilância e controle, porque fica então o Estado armado da desculpa perfeita para, sob a cobertura da alegada defesa da saúde pública, de aumentar os seus poderes assim como de o praticar de forma altamente injusta e particularmente arbitrária. Devemos então abdicar totalmente do nosso papel de contra-poder? Porquê? Que benefícios traz essa abordagem?

Bom, neste caso, temos pelo menos um- se aceitarmos incondicionalmente o consenso mediático/político assim como toda e qualquer iniciativa, desde que venha sob o pretexto da lutar contra a pandemia, então pelo menos livramo-nos do inevitável gozo pela parte da ala que escolheu abdicar de pensar, analisar, estudar e chegar a conclusões minimamente informadas. Eu prefiro submeter-me ao gozo, porque sei que quem goza neste contexto, regra geral, não consegue debater seriamente durante cinco minutos sequer. Capitulam sempre, fugindo ao debate usando um qualquer bluff que faz parecer que até têm argumentos, somente não têm tempo ou disposição para os dizer naquele momento.

Mas não têm, obviamente. Só têm umas piadolas aqui e ali, e é por essa razão a grande piada acaba por ser este grupo de orgulhosos crédulos ignorantes.

Será a ameaça de serem gozados por pessoas alérgicas ao pensamento estruturado suficiente incentivo para se juntar à massa de anti-pensadores? Para mim não é. Prefiro manter a mesma postura de sempre- estar aberto a todas as possibilidades, e estudar primeiro, e comentar depois, e claro, assumir à partida que o Estado não é de confiança e tem que ser escrutinado, sempre, até durante, ou melhor, especialmente, durante períodos em que este declara um suposto “Estado de Excepção”.

Infelizmente muitos continuam a escolher a via do gozo desinformado e politicamente servil.

Sobretudo, a quase total incapacidade da esquerda de cumprir o seu papel de contra-poder durante a pandemia deve ser um motivo de grande preocupação não somente para a esquerda em si, mas para toda a sociedade.

Eu digo sempre- tenham muito cuidado com situações em que constatam que só conseguem comunicar uma certa crítica através da sátira ou do sarcasmo e cinismo. Provavelmente quer dizer que estão a fazer bluff com vocês próprios. Pensam que têm uma tese a apresentar, mas provavelmente nem sequer uma anti-tese de jeito têm, quanto mais uma tese minimamente valiosa.

E lembrem-se sempre da frase que utilizo para tentar ilustrar onde quero chegar:

“O problema de só conseguir comunicar através de piadas, é que eventualmente ninguém nos leva a sério”.

5 respostas

  1. GOSTEI MUITO DO ARTIGO, COM O QUAL COMUNGO EM FUNÇÃO DO QUE ESTÁ A CONTECER EM NOSSO DIA A DIA, AQUI NO BRASIL, MUITO MAS MUITO PARECIDO.
    O QUE ENTÃO PODEMOS NOTAR E TALVEZ ATÉ CONCLUIR, APESAR DE EXISTIREM RAZÕES PARA MUITAS PREOCUPAÇÕES COM O VIRUS E COM A SAUDE DE TODOS, É QUE TRATA-SE DE UMA INICIATIVA, OU TALVEZ APENAS UM APROVEITAMENTO, DA GRANDE MAIORIA DOS GLOBALISTAS DE PLANTÃO.
    AINDA NÃO ESTÃO CLARAS TODAS AS RAZÕES, PORÉM COM O CRESCIMENTO DAS RIQUEZAS DOS MAIS RICOS, SEMPRE SOBRE OS MAIS POBRES, COMEÇAM A SURGUR AS RAZÕES, PARA POSTERIORMENTE VER-SE COM CLAREZA ESSAS REALIDADES.
    POR ORA VAMOS TODOS NOS CUIDAR; PRECISAMOS BUSCAR SAIR DESTA PANDEMIA, RAZOÁVELMENTE FORTES, PARA NÃO SUCUMBIRMOS ÁS ESTRATÉGIAS PARA A IMPLANTAÇÃO, AINDA QUE BEM DISFARÇADA, DE APENAS UM PEQUENO GRUPO, QUE SE JULGA MAIS INTELECTUALIZADO, MANDAR NESTE NOSSO PEQUENO MUNDO GLOBALIZADO.
    ABRAÇOS A TODOS . j. SERAFIM Abrantes (natural da BEIRA ALTA).

    ________________________________
    De: WordPress.com
    Enviado: sábado, 27 de março de 2021 18:19
    Para: Serafim
    Assunto: [New post] 8357

    João Silva Jordão posted: ” A esquerda durante a pandemia tem feito pouco mais do que gozar e tentar reprimir todo e qualquer debate à volta da maneira como os Estados se têm aproveitado dela para reforçar a sua capacidade de aplicar o poder de forma arbitrária e injusta A esque”

  2. Texto interessante. No caso aqui (Brasil) a direita chegou ao poder. Não digo que a direita ou até mesmo a esquerda sofram uma crise intelectual. Mas se você, indiferentemente de viés ideológico – ser de direita, centro ou esquerda – for contra ao atual governo (indiferentemente do motivo) aqui caracterizado de extrema direita, por qualquer motivo você é tratado com certo gozo (e este como principal argumento) e chamado de comunista. Mas, isso é apenas uma gripezinha. Cloroquina e tratamento precoce ajudam, as mais de 3 mil mortes por dia é um detalhe. Quanto a pergunta no início, também acredito que sim, por mais que isto não esteja claro.

  3. Boa tarde!
    Para quem ainda não percebeu: a Raquel Varela faz mal à esquerda – e muito! Pertencendo à sua “elite” , a quantidade de disparates que diz – desde as alterações climáticas à pandemia – e a forma arrogante como se apresenta revela quão intelectualmente pobre se tornou este grupo. Sendo cientista e de esquerda, incomoda-me que esta senhora, que do alto do seu privilégio chega até a criticar gente pobre por nao fazerem greve, seja apresentada como representante desta familia política. Não há pachorra!

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