As mães da porta da penitenciária

Sábado, 17 de Setembro, uma manifestação com poucas centenas de pessoas juntou-se às mães de Danijoy e Daniel num cortejo desde o Rossio até à Penitenciária de Lisboa (EPL) para lembrar o respeito devido, mas negado aos seus filhos mortos, eventualmente assassinados, naquele estabelecimento prisional conhecido faz muitos anos pela especial brutalidade das práticas de alguns guardas cuja identificação os serviços prisionais e o estado se recusaram e recusam a fazer.

A manifestação não foi tão concorrida como a que, há um ano atrás, reagiu, a quente, à notícia de três mortes de presos praticamente no mesmo dia e fez o percurso do EPL ao Rossio. Para quem sabe que a tortura e o assassinato de presos acontecem com a conivência do estado – como dos quarteis e das esquadras, lugares a que se dirigem as inspecções dos comités de prevenção da tortura que de longe em longe fazem os seus relatórios que o estado autoriza e desvaloriza – para quem sabe disso, o estranho é não haver mais manifestações e mais regularmente.

Porque será? Um apelo à memória de 20 anos de activismo com presos e alguns – raros – esforços para mobilizar as famílias dos presos para reagir, recorda o sofrimento causado pela impotência na defesa de quem está preso enquanto está vivo, sujeito a torturas que não denunciam para deixarem de estar na berlinda (enquanto o pau se levanta folgam as costas) e para não incomodar mais quem se preocupa com quem não se sabe defender, nem nos tribunais nem nas prisões. O luto faz-se em recolhimento e resignação. A vida dos mortos não é restaurável. A morte dos vivos pode transformar a vida dos zombies que estamos perante a crise financeira que de tão mal ultrapassada em 2008 é retomada agora, agravada pela pandemia e pela guerra reguladas internacionalmente por poderes fora do âmbito de qualquer controlo democrático. Democracias desinteressadas – nisso unidas com as autocracias – em controlar a seca, o aquecimento global, a desertificação, os fenómenos climáticos extremos como fogos e enxurradas de água, o excesso de mortes pós-pandemia, a inacessibilidade de cuidados de saúde para grávidas, fetos e crianças, o frio do Inverno, a queda do poder de compra dos que já não o tinham.

Não estamos habituados a enfrentar o facto de as nossas mortes serem desprezadas. Pelo contrário, vemos a excitação (seguramente racional e democrática) como a morte natural da Rainha foi acompanhada – Isabel II, como outro qualquer monumento, foi reverenciada em vida e na sua morte espectacular. A antiga imperadora legal, real, de pele e osso, do último império dominante, entretanto substituído por sucessão pelo império norte-americano, sem imperador formalmente reconhecido e ideologicamente anti-imperialista, como descobrimos – sem que se tenha ouvido risos – quando o ocidente decidiu combater o imperialismo russo (tão parecido com o ocidental que a Rússia retomou as bandeiras soviéticas para que a oposição possa ser compreendida pelo vulgo).

Como dizem os que assistem ao funeral, a senhora rainha era parte da família. Os presos não são parte de famílias. Há quem lhes chame famílias desestruturadas. Assim evita-se falar da miséria induzida pelos estados para presentear a economia com gente faminta obrigada a aceitar trabalhos de merda para sobreviver em bairros degradados que servem de local de treinos para as polícias encarregues de atender aos sentimentos de insegurança, fazendo espectáculo – televisionado e noticiado – da sua brutalidade e impotência. Mais fundo na nossa má consciência social ficam os tractos de polé com que, desde crianças, nas escolas e nas ruas, crianças abandonadas se orientam sem contar com outra coisa a não ser a repugnância de quem os olha como perigosamente contagiantes de desgraças, profecia que se concretiza, por sistema.

Na morte, o valor social das pessoas, pouco ou muito, é afirmado pelos vivos. Honra a Danijoy, a Daniel, a Miguel e todos os outros – sem nome de família – que morrem sem terem sequer um monumento como os que se fazem ao soldado desconhecido e que funcionam como vala comum.

Claro que quem vive a opressão extra-legal, sabendo o estado ser seu inimigo no bairro, no trabalho, no mercado, na rua, na vizinhança, entre a perspectiva de passar o resto da vida a prestar homenagem aos mortos com nomes truncados e a de fazer o luto tão rapidamente quanto possível – até porque geralmente há outras pessoas vivas na mesmo condição dos que morreram a necessitar de cuidados – escolhe esta última.

A manifestação de 17 de Setembro de 2022 em nome dos presos mortos na Penitenciária, um ano antes, é extraordinária. Sinaliza, porventura, energias novas a surgir. A gente presente era nova, oriunda em parte de movimentos identitários diferentes, orgulhosa de si e da solidariedade com que acompanharam quem sofre de opressões parecidas em condições sociais diferentes. Os muros das prisões foram abaixo, nas palavras de ordem dos que compreendem que os armários e os racismos são também produzidos por muros como os das prisões, todos diferentes e todos interseccionalmente iguais.

O governo e a polícia ouviram o radicalismo das palavras de ordem e calaram, ao contrário do que por vezes fazem, quando acham que estão em condições de bater em alguém. Vejamos o que se passa nos EUA, usando este trecho de uma entrevista do Setenta e Quatro.

João Biscaia, jornalista – Uma das frases mais impactantes do livro é uma citação de um professor: “não interessa se uma ação é ilegal se tivermos suficientes pessoas para a fazer”. Como foi ver os professores ganharem consciência de classe e agência política através destas lutas e, depois, vencerem?

Eric Blanc, autor norte americano – Foi o mais emocionante. A parte mais bonita da greve foi ver como a participação e a luta transformavam as pessoas, individual e coletivamente. Vi constantemente, ao entrevistar os professores, como o reconhecimento de poder dos indivíduos e a sua compreensão de como funciona o mundo as mudou dramaticamente num curto período de tempo, porque participaram em ações que nem sabiam serem possíveis.

Houve uma dinâmica de despertar quase do tipo religioso, ao estarem rodeados por dezenas de milhares de colegas dentro do prédio do Capitólio estadual, ao fecharem o sistema escolar estadual, tendo todo o estado e grande parte do país a assistir. Estas ações deram aos professores um sentido de propósito que muitas vezes é negado ao vivermos numa sociedade em que simplesmente sobrevivemos. Há um sentido de poder, de se estar a fazer história, e de solidariedade e identidade, que é o mesmo que dizer que o meu destino está ligado ao dos meus colegas e ao da restante classe trabalhadora.

(…)

O mito da resignação da classe trabalhadora está a ser destruído?

Sim. Fiquei muito, muito feliz em ver a atenção dada à organização dos trabalhadores (…) [a raiva é] canalizada pelos republicanos contra bodes expiatórios ou é canalizada pela esquerda para a emancipação dos trabalhadores. A questão de como e para onde se canaliza a raiva vai realmente definir tanto o movimento dos trabalhadores quanto a política, nos próximos anos.

Em https://setentaequatro.pt/entrevista/eric-blanc-greves-dos-professores-reacenderam-o-movimento-laboral-nos-estados-unidos

Portugal e a Europa são muito diferentes dos EUA. Mas a natureza humana é a mesma. O espírito do tempo, nomeadamente as lutas pela democracia, asa dos trabalhadores e a que os impérios alegam para fazer a guerra, transmitem-se no tempo e no espaço. Olhando para o lado de lá do Atlântico e para a Ucrânia vemos o que está em causa na Penitenciária de Lisboa e na importância de seguir as mães da Penitenciária a reclamarem orgulho nos filhos que o estado, displicentemente, informou que perderam a vida.

 

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