O Ressurgimento do “Racismo Cientifico” – e Como o Derrotar

Nota: Este artigo foi inicialmente publicado a 27 de Fevereiro de 2018, mas foi ligeiramente editado a 4 de Março de 2018- foram adicionadas imagens, e certas informações foram clarificadas…

Propaganda racista que diferencia formas do crânio e cara com níveis de inteligência… 

Estamos a constatar a terceira vinda do racismo dito “cientifico”.

Primeiro vieram os eugenistas Britânicos, depois os Nazis, e agora, a Alt-Right e os seus amigos, que nos dizem que certos “povos” são intelectualmente superiores. Gritar “racista!” não chega, é preciso ter argumentos um pouco melhores, e sobretudo, perceber a confusão que estas pessoas tentam gerar para que os argumentos racistas pareçam fortes, quando de facto são fracos. Muitas pessoas isolam-se nos seus círculos restritos e não notam, nem querem notar, o quanto estes argumentos estão a ganhar terreno. Virar a cara não chega, e ignorar, só vai piorar a situação. Temos que lhes fazer frente com argumentos e factos.

Um dos principais defensores desta nova onda de racismo cientifico é o Stefan Molyneux, um branco com um nome Francês que vive numa terra previamente ocupada por indígenas da América do Norte, o Canadá. Ele tem vários vídeos com centenas de milhares de visualizações nos quais defende que os brancos são intelectualmente superiores.

Outros exemplos desta nova onda de racismo pseudocientífico vêm na forma de estudos que estabelecem relações entre etnia e inteligência. Muitos dos que defendem e falam destes “estudos” são brancos, mas alguns destes “estudos” demonstram que dois grupos étnicos surgem consistentemente em posição superior aos brancos em termos de inteligência média- asiáticos do extremo-Oriente e, ironia das ironias, Judeus. Dizem também que a “civilização branca” é superior e está sob ataque, sobretudo pela imigração descontrolada, e que o Ocidente se deve defender destes povos intelectualmente inferiores através da redução do número de imigrantes.

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Valores Médios de QI nos EUA por Grupos Étnicos, 1987. Os asiáticos, e não os brancos, aparecem em primeiro lugar.

A maneira mais fácil de demonstrar que as conclusões que muitos retiram destes “estudos” são falsas é através de um termo em inglês, “every dog has his day“, que quer dizer “todo o cão tem o seu dia”. Ora em termos civilizacionais, isto é absolutamente e inquestionavelmente verídico. Todos os povos (grupos etno-linguístico) têm os seus períodos de prosperidade e sucesso, como todos têm períodos de maior decadência e falhanços. Não há povo que não tenha tido algures na sua história um período, por muito breve que tenha sido, de dominação regional, continental ou até global. Nenhum. Os indígenas das Americas tiveram grandes civilizações. Os Chineses surgem e ressurgem constantemente como o poder dominante do continente, ou até do mundo. Os Mongóis tiveram dada altura o Império mais vasto da história. As civilizações do Egito Antigo, por vezes lideradas por elites negras, construíram edifícios que até hoje, com tecnologia moderna, não replicamos por falta de vontade ou capacidade. Um dos melhores arquitetos e engenheiros do Egito antigo foi Senemut; a obra dele inclui o templo de Hatshepsut e os obeliscos do Templo de Karnak.

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Templo de Hitshepsut, em Deir el Bahari
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Obeliscos do Templo de Karnak, que estão entre os grandes feitos de engenharia e arquitetura do génio Senemut

Um dos homens mais ricos que já existiu foi o Mansa Musa, um negro do Mali. A riqueza extrema está longe de ser uma virtude, muitas vezes, muito pelo contrário, mas é um facto que vai contra as teorias dos supremacistas brancos que dizem que somente os brancos conseguem construir civilizações avançadas e sistemas de governação complexos. A Babilónia. A Pérsia. A Grécia antiga. Roma. Todas civilizações com configurações étnicas diferentes, e todas tiveram o seu período de prosperidade, dominação, e eventual declínio.

Se os brancos estão geneticamente predispostos a serem mais inteligentes, porque foi no Médio Oriente, na Mesopotâmia para ser mais exato, e não na Europa do Norte, que nasceu aquilo a que chamamos “civilização”? Fácil. Porque os brancos não são intelectualmente superiores. Mas será que certos povos, a certas alturas, atingem patamares de intelectualidade superior a outros? Claro, sem dúvida. Mas não por razões étnicas, nem por superioridade de uns e limitações inerentes de outros, mas sim como resultado de condições especificas, que são de foro climático, geográfico, político, económico, e sobretudo, através da existência de mecanismos como cidades desenvolvidas, instituições de educação, e uma cultura que promove o desenvolvimento intelectual, a educação, entre outros fatores. Ou seja, todos os povos passam por períodos de maior e menor desenvolvimento intelectual.

E muitas vezes são povos de pele mais escura que são as classes mais tendencialmente intelectuais de uma certa região ou nação.

Exemplo prático- Portugal. Fundado não somente como uma nação Cristã, mas também como uma nação branca, o poder instituído tentou, incrementalmente, expulsar os povos não-Cristãos e de pele mais escura, e só conseguiu virtualmente acabar o seu plano de substituição de população por volta do século XVI. Não estando satisfeitos com os resultados das conversões forçadas, os Novos-Cristãos, muitos deles previamente Muçulmanos e Judeus, foram massacrados ou expulsos. Muitos eram mouros, a maioria dos quais não eram etnicamente árabes, mas sim negros. E o que aconteceu? Ao massacrar e expulsar estes povos de pele tendencialmente mais escura, expulsou também uma parte substancial dos seus melhores cérebros- alguns dos melhores pensadores, profissionais altamente qualificados, e sobretudo, muitos dos seus melhores comerciantes, ou foram mortos ou expulsos, ou fugiram para países como a Holanda, que enriqueceram bastante como resultado disto.

Portugal, no século XVI, ao querer tornar-se mais Cristão e mais Branco, acabou por se tornar também num país menos qualificado e menos inteligente. Ou seja, naquela altura, uma política cuja intenção era ter uma população mais branca teve como efeito colateral, não-desejado, a redução da inteligência média do país.

Mas isto não quer dizer que os brancos sejam estúpidos por natureza. Ou quer? Se acreditarmos na propaganda da Alt-Right, seria esta a conclusão a retirar.

Mas não é. A conclusão é que a inteligência não depende da etnia, mas sim do acesso à educação, da existência de uma economia desenvolvida e que tenha excedente produtivo que possa ser investido em projetos de desenvolvimento e sobretudo, educação, entre outros fatores. Como certos povos a certas alturas têm acesso a isso mesmo, conseguem subir a um patamar intelectual superior, e pode parecer que a razão é a etnia, mas não é. E o facto dos estudos que visam aprofundar e provar a relação entre etnia e inteligência tenham resultados tão diferentes e ambíguos demonstra isso mesmo.

E acima de tudo, temos que dizer calmamente a todos os grupos que pensam que são superiores por causa da cor da sua pele e da suposta superioridade da sua civilização; não fiquem demasiado confortáveis, e lembrem-se:

Every Dog has His Day

2 comments

  1. Acho os resultados estatísticos dos resultados de matemática os mais fantasticamente falaciosos de todos.
    Analisar os resultados de uma disciplina que exige muito estudo é analisar a disponibilidade (e vontade) que cada aluno tem de estudar para essa disciplina, o que naturalmente se reflecte é a condição socio económica de cada um. Famílias que podem acompanhar os filhos (e pagar explicações por exemplo) geram boas notas.
    Da minha experiencia com a estatística (sou licenciado em matemática) o que aprendi é que é muito perigoso caracterizar as correlações entre os dados.
    Se é um facto que populações de etnias diferentes têm médias diferentes (na amostra em causa), isto não implica que os hispânicos sejam mais burros que os asiáticos, implica a meu ver (e notem que vou caracterizar a correlação) que na população estudada em média as pessoa de etnias diferentes tiveram acesso a apoio ao estudo diferentes, mais nada.

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