Que nenhuma criança viva na pobreza

Cardeal José Tolentino Mendonça recebe Medalha de Mérito da Região Autónoma da Madeira
O Cardeal D. José Tolentino

O cardeal D. José Tolentino Mendonça falou nas comemorações do 10 de Junho, a convite do senhor Presidente da República, o mesmo que descobriu durante o mandato que não é possível acabar com os sem abrigo em Lisboa. Foi muito elogiado pelo seu discurso. Fui ouvi-lo, quando falou para as mais altas autoridades do estado, nos Jerónimos. O que ouvi foi um profundo discurso sobre a fragilidade do poder e do meio ambiente, representada por raízes expostas depois da tempestade ter arrancado as árvores. Ouvi falar da necessidade de voltar ao povo, à igualdade entre humanos, representada pela comunidade solidária. Não pude evitar pensar no Padre António Vieira e no uso da sua estátua por gente anónima para denunciar as sequelas da colonização, como o racismo que o presidente do segundo maior partido faz questão de dizer que não existe em Portugal.

Os elogios ao discurso do cardeal são merecidos. Em síntese, disse (contradisse) o maior dos segredos políticos modernos: como explicou Mao Zedong, o poder é um tigre de papel, está na ponta das espingardas. Isto é, depois dos abusos de poder das últimas décadas – guerras fundadas em mentiras, culpabilização dos pobres por viverem acima das possibilidades, cargas policiais sobre negros que reclama protecção, etc. – a margem de manobra das elites é cada vez mais estreita. As raízes estão à mostra. É preciso, para manter o poder de 900 anos de história, reconhecer a natureza humana: aquilo que (também) ensinam os Evangelhos. Somos todos irmãos e irmãs. Somos todos úteis para manter o poder dos poderosos, em tempos de tempestade.

As ciências sociais que inspiram as políticas públicas, a justiça social, a que o orador se referiu para o fim da sua intervenção, sofrem da mesma entorse ideológica dos discursos dos poderosos. D. José denunciou, do alto do seu magistério bem mais antigo e conhecedor do que o das teorias sociais, a ausência de referências das ciências sociais aos cuidados necessários à produção de identidades, como a nacional, feita de micro-identidades de todos e cada um – muito bem, senhor cardeal! Fê-lo chamando a terreiro Benedict Anderson e a sua teoria das identidades imaginadas, sem a citar, e Margaret Mead, citando-a para definir civilização: começou, não com a Igreja ou com Portugal, mas muito antes, com a capacidade consciente dos humanos de se cuidarem mutuamente.

Ao contrário do que fazem as ciências sociais, muito mais além do que fazem as teorias sociais, Tolentino – como é por vezes nomeado – falou ao poder das suas limitações, apresentando-lhe o labor das micro-identidades e a prestação de cuidados a todos como pedras de toque da possibilidade de as elites portuguesas continuarem a manter os respectivos estatutos, que nunca estão verdadeiramente assegurados a não ser pelo labor de cada geração, nas circunstâncias que são as suas. Recomendou, então, avaliar a situação em função da justiça social, não apenas na perspectiva das ciências sociais vulgares, dos instrumentos estatísticos actualmente ao serviço do estado, mas num entendimento mais informado e abrangente do que é a alma humana, a alma portuguesa criada por Camões, o todo da humanidade e do meio ambiente de que fala a encíclica Laudato Si.

Uma breve nota para o leitor: na minha luta por entender a sociologia, de que faço profissão, descobri que há as teorias dos poderes, dos contra-poderes e dos micro poderes. Os cuidados são deixados à medicina e as identidades são pensadas como expressões culturais, formas de incorporação das influências de poderes previamente existentes. Os investigadores críticos têm de procurar as energias criativas e os criadores fora do campo das teorias sociais, como na arte. O discurso do 10 de Junho é mais uma confirmação, trazida de alguém de fora das ciências sociais, mas profundo conhecedor das teorias sociais, das auto-limitações impostas pelas universidades e pelas políticas de ciência às ciências sociais. Se bem interpreto, o cardeal está a dizer, de forma subtil, que é na Igreja romana que, mais uma vez, as elites portuguesas devem confiar para procurarem orientações nestes tempos de mudança. Nem outra coisa seria de esperar. Para aquilo que às ciências sociais diz respeito, o que fica dito – e bem dito – é a limitação dos profissionais ao serviço dos poderes, que dizem e vivem de dizer aquilo que agrada aos poderosos (com excepção de alguns desalinhados que vão sendo omitidos da eventual importância das suas ideias pelos mercados da ciência, em que se tornaram as universidades).

A justiça social é o resultado das situações em concreto. Destacou o religioso três casos: o dos idosos, o dos jovens adultos e dos trabalhadores imigrantes. Questiono-me porque não se referiu às crianças.

As crianças nascidas em Portugal são cada vez mais filhas de mães estrangeiras (sempre a crescer nos últimos anos, enquanto os nascimentos de filhos de portuguesas têm vindo a decrescer). Uma em cada três crianças precisa da cantina escolar para ter uma refeição quente, o que leva as cantinas a estarem abertas mesmo quando há férias escolares. Além da falta de alimentação e dos cuidados familiares, estas crianças são estigmatizadas pelas outras, suas colegas, informadas da sua condição de párias, mesmo antes de poderem reconhecer a sua própria personalidade e identidade. A demografia e a presença de crianças, por outro lado, é uma preocupação política central, como se vê no facto dos deputados terem vindo a ultrapassar as ideologias xenófobas ridicularizadas pela já longínqua campanha de Paulo Portas para restringir as entradas a imigrantes, quando ninguém queria entrar para trabalhar em Portugal. Hoje, todos estão de acordo em acabar com a bestialidade de negar a nacionalidade a crianças e jovens nascidos e criados em Portugal, só porque são filhos de estrangeiros. Precisam de corpos para servir as políticas de servir a colonização do país pela economia globalizada, precarizada.

Foi ao pensar neste aspecto, a ausência das crianças no discurso do 10 de Junho, que me recordei do ataque à estátua do Padre António Vieira, onde estão crianças representadas.

Trata-se de uma estátua que passa desapercebida, ao contrário da estátua bem mais pequena do cauteleiro, na mesma praça (experimentem fazer uma busca na internet de imagens do largo da Trindade e vejam). O que fará o padre com aquelas crianças à ilharga? O que fazem os padres com as crianças, meu Deus?

A minha bisavó, filha de uma escrava doméstica em São Tomé, foi criada na Misericórdia de Lisboa e despachada para casar em África, quando chegou a idade. Tenho alguma coisa em comum com o Padre António Vieira: uma avó negra. Tanto quanto sei, e sei muito pouco, as coisas correram bem para essa minha bisavó. Mas não correram bem para muitas outras pessoas que ficaram para trás, como agora se diz.

Claro que existe um problema de justiça social. Quem tenha a sorte de ter uma família capaz de pagar as despesas de uma educação esmerada em colégios particulares, mesmo que não dispense cuidados nem identidade genuína, pode passar por pessoa bem-educada. Mas muitas crianças pelo mundo fora, e também em Portugal, são simplesmente abandonadas à sua sorte. São mais crianças do que capacidade para a as criar. Como se fez em Portugal, as crianças podem ser recolhidas da rua, para não dar mau aspecto, como acontece onde há bandos de crianças a vaguear à procura de meios de sobrevivência. Mas faz falta dizer que, milenarmente, as crianças são usadas para exercícios perversos de poder por quem delas toma conta e deveria prestar cuidados susceptíveis de criar identidades criativas e resilientes. Tivemos o caso Casa Pia. Porque deixou de se falar disso?

É claro que o nosso cardeal não poderia falar de tudo. Porém, no momento histórico em que a Igreja Católica vive com dois Papas vivos em razão do combate declarado à facção dentro do Vaticano que entende os abusos sexuais de crianças como algo que não deve ser extirpado, o que o terá inibido de se referir ao debate mais importante da instituição de que faz parte?

Recordo-me da surpresa com que ouvi o anterior Cardeal Patriarca de Lisboa, numa recepção no Vaticano, dirigir-se às visitas portuguesas dizendo estarmos a viver na diáspora. Quer dizer, para o Patriarca de Lisboa, a sua identidade era romana, vaticana, antes de ser portuguesa. Nunca tinha pensado nisso. Mas faz todo o sentido. Claro. Por isso, estranhei que Tolentino não se tenha referido a essa sua dupla identidade, precisamente no momento em que chama, com toda a razão e pertinência, a atenção dos presentes e ouvintes para as questões da identidade.

Neste ponto, volto a pensar em Vieira, ou no ataque de que a sua estátua foi alvo, por parte de quem continua a sentir-se colonizado. Volto a pensar em quem falta oportunidade de dar conta, a não ser travestindo-se de vítima, do modo como quotidianamente muitos portugueses, europeus, americanos, insistem em recordar aos negros, ciganos ou não brancos como não são exactamente humanos. Em quem entendeu aproveitar o momento de agitação no império para sintonizar Lisboa com as manifestações que se espalham no ocidente.

Os imigrantes oriundos de países hierarquicamente superiores a Portugal, como o Vaticano, são tratados em Portugal como referências de civilização e distinção, mesmo quando sejam inconvenientes – que não foi de todo o caso do nosso cardeal. Imigrante é uma expressão que serve para designar trabalhadores pobres não nacionais ou nacionais, mas de origem familiar africana ou outra, fora de Portugal.

Pensar o futuro da humanidade, estou de acordo com Tolentino, passa por integrar os estudos e reflexões sobre os cuidados e sobre as identidades nos estudos do poder, actualmente monopolizados por ciências sociais profissionalizadas e ansiosas por reconhecimento das elites, que são quem pode pagar salários e realizar a expectativa de viver com uma licenciatura acima das possibilidades que se teria sem ela. O que me parece que falta acrescentar é que a igualdade entre todas as pessoas de que falou, como doutrina, não é exactamente aquilo que fazem as elites, na sua frente representadas pelos mais altos magistrados do estado.

Não acredito que a simples doutrina, seja ela da Igreja ou dos direitos humanos, seja suficiente para inspirar actos generosos e transformações criativas para realizar a justiça social. Então, sugiro ao leitor que acrescente à lista de preocupações de D. José, já de si exigente, atender às crianças: as que nas famílias são alvo de maus-tratos e as que institucionalizadas são usadas para os fins mais diversos, sem que estejam protegidas de maneira nenhuma. Crianças nacionais ou estrangeiras, igualmente.

Para começar, sugiro que em vez de estigmatizar as crianças com famílias em dificuldades, através de apoios escolares, nos asseguremos que nenhuma criança viva na pobreza, até ter idade para trabalhar.

One comment

  1. Caro Senhor ANTONIO PEDRO DORES
    Li com muita atenção suas linhas e seus conceitos.
    Concordo plenamente com suas colocações.
    Porém sinto que essa REALIDADE é quase em todos os PAISES,
    Assim é um mal do MOMENTO ou do MUNDO ATUAL, embora seja muito parecido ao longo dos tempos.
    MANDA QUEM PODE, e OBEDECE QUEM TEM JUIZO…..
    Se as nobres mentes das ELITES que mandam, e quase sempre mandaram…, no MUNDO ECONOMICO, não se sensibilizarem para essas REALIDADES, pois que sempre têm a seu lado as FORÇAS ARMADAS,
    O MUNDO VAI CONTINUAR ASSIM POR MUITOS E MUITOS ANOS, o que é um grande desprestigio, á tão propalada IGUALDADE. Parece que sempre esquecem, ou nunca querem lembrar, que todos somos IGUAIS perante DEUS, e teoricamente também perante as LEIS….
    Mesmo assim a LUTA pela IGUALDADE, jamais pode desaparecer, pois quem sabe um DIA, ainda que distante, essa TESE merecerá mais e mais PREOCUPAÇÕES de TODOS.
    Abraços. Jose SERAFIM Abrantes

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