A vida, carreira e prisão de Ghislaine Maxwell

Quem é Ghislaine Maxwell e que papel desempenhava ela na rede criminosa de Jeffrey Epstein? De que crimes é acusada e que outros crimes lhe poderiam ser imputados?

Ghislaine Maxwell

Filha de um magnata da comunicação, alegado espião, burlão e membro da Câmara dos Comuns, Robert Maxwell, e de uma historiadora especializada no Holocausto, Elisabeth Maxwell, Ghislaine Maxwell viveu a primeira parte da sua vida essencialmente como socialite, participando tanto em projectos conduzidos pelo seu pai, como em projectos sociais próprios, mais tarde passando grande parte do seu tempo numa vida extremamente privilegiada, nomeadamente em iates propriedade do seu pai. Seria impossível considerar que alguma vez tenha tido uma vida difícil. O seu pai, talvez, Ghislaine, nunca.

Robert Maxwell morreu em 1991, com Ghislaine a afirmar que havia sido assassinado e, apesar de ter deixado um enorme buraco nos fundos de pensões das empresas que geria, deixou também um fundo de investimento suficiente para permitir à filha um rendimento fixo que lhe permitiu continuar a sua vida de socialite, desta vez em Nova Iorque. Muito antes de ser a assistente de um símbolo dos crimes sexuais e impunidade das elites, a sua vida já era um exemplo da depravação social dessas mesmas elites.

Foi como socialite em Nova Iorque que Ghislaine conheceu e iniciou um relacionamento com Jeffrey Epstein, relacionamento que orbitou entre romântico (assumindo aqui que estas duas pessoas seriam disso capazes) e profissional, sendo descrita por varias pessoas próximas de ambos como seu braço direito ou até “a assistente agressiva”. Neste período de tempo, é várias vezes vista e fotografada com várias celebridades, tanto do mundo dos negócios, como de vários quadrantes da política, das artes e do espetáculo, quase sempre também acompanhada do próprio Epstein.

Deste período sobraram as fotos e os mais recentes “tweets normais de pessoas normais” em que várias pessoas que se sabe terem-se movido nos mesmos círculos sociais vêm dizer que nunca conviveram assim tão de perto com a dupla até porque “já desconfiavam”.

Quais são afinal as acusações levantadas?

Segundo a imprensa internacional, em quatro das seis acusações Ghislaine Maxwell é acusada de factos referentes ao período entre 1994 e 1997, período no qual ela e Epstein seriam extremamente próximos. Acusações mais recentes, de 2016, referem-se a perjúrio em depoimentos dados a um tribunal de Nova York em 22 de Abril e 22 de Julho de 2016.

Fazendo fé nas acusações, Maxwell “deu assistência, facilitou e contribuiu para o abuso de meninas menores por Jeffrey Epstein, ajudando Epstein, entre outras coisas, a recrutar, preparar e, finalmente, abusar das vítimas com menos de 18 anos, o que era sabido por Maxwell e Epstein”.

Os crimes tipificam-se em conspirar para atrair menores a viajar para a pratica de actos sexuais ilícitos, incentivar uma menor de idade a viajar para prática desses mesmos actos, conspirar para transportar menores com intenção de envolvimento em actividade sexual criminosa e finalmente, transportar uma menor de idade com a intenção de envolvê-la em actividade sexual criminosa. As acusações incluem então tanto a autoria moral como material de crimes sexuais envolvendo menores de idade.

Seguem-se descrições mais ou menos pormenorizadas de práticas de abuso sexual, manipulação emocional de menores(em inglês, “grooming”).

Segundo as acusações, Maxwell terá preparado várias menores para actos sexuais com Epstein, através de uma aproximação inicialmente inocente e amigável em que se conectavam às suas rotinas e famílias. Essas relações iam incluindo actos progressivos cada vez mais frequentes de normalização de intimidade e proximidade sexual, até ao ponto de Maxwell estar presente durante actos sexuais entre Epstein e as diferentes vítimas.

As vítimas acusam também Maxwell de as trazer para o seu círculo próximo e então as submeter a abusos sexuais por ele vários dos seus amigos, sendo Maxwell descrita como “controlando as meninas”, uma das vítimas descrevendo o processo como se iniciando ao ser recrutada aos 15 anos para massagista de Epstein e aos 17 anos forçada a ter relações sexuais com o Príncipe Andrew, que nega todas as acusações.

Ghislaine Maxwell e Kevin Spacey no trono do UK
Ghislaine Maxwell e Kevin Spacey, sentados no “trono da coroação” durante uma visita ao palácio Buckingham em 2002, a qual foi proporcionada pelo Príncipe Andrew.

Maxwell não era vista em público quase desde 2015 e por várias vezes foi alvo de processos cíveis e criminais, em muitos dos quais era quase impossível ser localizada. Foi a 2 de Julho deste ano que foi finalmente presa pelo FBI, tendo sido formalizadas as acusações antes descritas.

A vida pública desta quase vilã bondesca baseou-se no acesso a uma fortuna para a qual nunca trabalhou, herdada de alguém cujo estilo de vida se baseou, pelo menos em parte, no saque criminoso a uma quantidade enorme de trabalhadores, alguém que, hipocritamente ou não, se fez eleger como deputado por um partido dito de trabalhadores. Desde aí ter-se-à dedicado à manipulação e exploração sexual de jovens menores de idade para um dos maiores esquemas de tráfico sexual alguma vez desmascarado no Ocidente. É quase impossível apontar um pormenor da vida desta pessoa que não seja indicativa da depravação, hipocrisia e exploração que está subjacente ao topo do topo do nosso actual sistema económico, político e social.

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