Bill Clinton – Os Escândalos do (ex) Presidente

Há um filme mais ou menos conhecido, chegou a transmitir naquelas tardes de sinal aberto daquelas alturas em que a televisão portuguesa chegava a transmitir cinema, chamado em Português “Os Escândalos do candidato” (“Primary Colors” na versão original). O filme é uma versão ficcionalizada do processo de primárias que levou à nomeação de Bill Clinton em 1992, baseado num livro com o mesmo nome.

O filme Primary Colors estreou em 1998 e foi uma espécie de flop, apesar de ter sido aclamado pela critica. Apesar da caracterização que faz do casal Clinton, nem o seu realizador, nem o autor do livro que lhe deu origem tiveram mortes misteriosas.

Seguem spoilers para quem não tiver visto este filme com 22 anos(sim, 1998 foi há mais de 20 anos). O filme acaba por ser uma espécie de tragicomédia e tem um dos pontos focais da tragédia na cena em que Henry Burton, interpretado por Adrien Lester, simplesmente vomita, após cumprir a tarefa de garantir o silêncio do pai de uma adolescente que estaria grávida de um possível filho do candidato. O climax da tragédia vem no suicídio de Libby Holden, interpretada por Kathy Bates, após chegar ao limite do que poderia tolerar em nome de um suposto bem maior, ou “mal menor”.

Bill Clinton dispensa apresentações, Procurador Geral do Estado do Arkansas entre 1977 e 1979, Governador desse mesmo estado entre 1983 e 1992, tomou posse como 42º Presidente dos Estados Unidos em 1993, tendo sido reeleito em 1997, mandato que terminou em 2001. A sua presidência ficou marcada por prosperidade económica, desregulação do sector financeiro, ratificação do Tratado de Comércio Livre da América do Norte e endurecimento das políticas criminais e carcerárias. A sua política externa incluiu, entre muitos outros pontos, os bombardeamentos da Sérvia, os Acordos de Oslo para o Médio Oriente e o bombardeamento de uma farmacêutica sudanesa, defendido pela suspeita de ser uma fábrica de armas químicas.

Mas este artigo não é sobre as complexidades da política imperial e doméstica dos Estados Unidos num dos seus períodos de hegemonia incontestada. É sim, sobre os escândalos sexuais que acompanharam a sua presidência e toda a sua carreira política, assim como a documentada relação entre Bill Clinton e Jeffrey Epstein.

Os casos são numerosos, alguns de relacionamentos impróprios ou adultério, outros de puro e simples abuso sexual ou até violação. O ex presidente até hoje nega todos os casos de abuso, tendo admitido apenas alguns considerados consensuais, mesmo que impróprios.

Em 1999, Juanita Broaddrick acusou Clinton de uma violação que teria ocorrido em 1978, quando este era Procurador Geral do Arkansas, acusação que acabou por negar sob juramento, segundo a própria para proteger a sua privacidade. Em 2016 e já no contexto do movimento #meetoo, Leslie Millwee afirmou ter sido mais que uma vez tocada contra a sua vontade pelo então governador do Arkansas. Kathleen Willey afirmou também ter sido tocada contra a sua vontade por Clinton. Mais tarde o seu testemunho foi posto em causa, com várias testemunhas próximas as afirmar que as interações entre Willey e Clinton haviam sido consensuais.

O caso Paula Jones acaba por ser talvez o segundo mais conhecido escândalo sexual da carreira política de Clinton. Jones acusava Clinton de este lhe ter feito propostas sexuais enquanto se exibia, num quarto de hotel para o qual teria sido levada por indicação de um agente da Policia Estadual do Arkansas. A participação de agentes desta força policial nas indiscrições de Clinton chegou a ser afirmada como representando um padrão de abuso de poder, mais tarde um dos jornalistas que denunciou essa participação retraiu grande parte das suas declarações num pedido de desculpas público.

O caso teve vários avanços e recuos, tendo terminado com um acordo extra judicial que cobriu as despesas legais de Jones e que os advogados de Clinton afirmam ser “apenas para dar fim ao assunto”. Jones continua a afirmar que foi vitima de assédio, Clinton continua a nega-lo.

Clinton acabou por admitir dois casos extra conjugais, afirmando sempre que foram consensuais. Um deles com Gennifer Flowers, que afirma que os dois terão mantido um relacionamento durante cerca de um ano, enquanto Bill Clinton admite apenas ter tido relações sexuais com Flowers uma vez.

O caso mais famoso é obviamente o de Monica Lewinsky, o caso que levou ao processo de destituição de Bill Clinton, não pela relação em si, mas por ter mentido sob juramento acerca dela e por obstrução à justiça. O caso levou a intensas discussões sobre a definição de “relação sexual”, sobre a aceitabilidade social do adultério e sobre a relevância da conduta privada e pessoal para o exercício de cargos públicos de elevada responsabilidade e exposição.

Por discutir, tanto no caso Lewinsky, como nos restantes casos que envolvem Bill Clinton ou indo mais longe, homens poderosos em geral, ficou, pelo menos na altura, a enorme assimetria de poder entre Bill Clinton e as mulheres com quem este se envolvia, mesmo quando aparentemente de forma consensual. Actualmente, Lewsinky afirma que essa assimetria coloca a relação que estabeleceu com Clinton na categoria de abuso de poder. Esta assimetria acaba por ser um padrão nos casos que envolvem Bill Clinton. Em muitos dos casos, a diferença de idade e de posição hierárquica coloca os envolvidos numa assimetria que torna qualquer discussão sobre consentimento extremamente difícil.

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Monica Lewinsky a palestrar na TED Talk intitulada The Price of Shame, na qual fala da sua experiência com o Bullying Online na sequencia do escândalo da sua relação com Bill Clinton

Mas onde é que entra Jeffrey Epstein no conjunto dos escândalos sexuais do ex Presidente? Seria a relação entre Bill Clinton e Epstein, de proximidade e cumplicidade nos crimes do banqueiro? Ou seria uma relação lateral entre dois frequentadores dos espaços de socialização da alta sociedade americana, que por coincidência, tinham ambos uma noção de consentimento extremamente dúbia?

Bill Clinton está nos registos de voo do Lolita Express e foi mais que uma vez fotografado junto a Jeffrey Epstein ou Ghislaine Maxwell. Por admissão própria e consulta dos registos de voo, estão confirmadas quatro viagens feitas por Bill Clinton no jato privado de Epstein. Duas a África, uma à Àsia e outra à Europa. As relações publicas do ex presidente continuam a negar que este alguma vez tenha estado na ilha privada do falecido banqueiro. Segundo a análise desses mesmos registos de voo(os originais não adulterados) feita pela rede Gawker , o número de viagens seria superior a uma dúzia e por mais que uma vez, estariam a bordo mulheres identificadas apenas pelo primeiro nome, ou num dos casos, como apenas “female”. Destaque-se que o uso do avião estaria associado ao trabalho da Fundação Clinton em África e que no conjunto desses mesmos voos teriam estado presentes pessoas tão recomendáveis como Kevin Spacey, Chris Tucker, Ron Burkle, e Gayle Smith.

Mais recentemente foram publicadas fotos em que surgem Clinton e Chauntae Davies, identificada nos documentos de Epstein como “Massagista” que à data (2002), teria 23 anos. Davies afirmou ao The Sun que nada do comportamento de Clinton na altura foi impróprio e que ele teria agido como “um verdadeiro cavalheiro”. Sendo à data, maior de idade, Davies afirmou nas suas memórias ter sido várias vezes violada por Epstein. Se os seus conceitos de “impróprio” ou “verdadeiro cavalheiro” poderiam estar distorcidos pelo trauma a que foi exposta, é algo que só a própria poderá responder.

As conexões e interações entre Clinton e Epstein não se limitam ao uso do jato privado de Epstein para viagens relacionadas com a acção da Fundação Clinton no continente africano. Segundo o seu porta voz actual, Angel Ureña, terá feito uma visita à sua residência em Nova Iorque, mas nunca à mansão em Palm Beach, nem à sua ilha privada, ou ao seu rancho no Texas. Estas negações contradizem o testemunho de Virginia Giuffre, que afirma ter visto o ex Presidente na ilha privada do falecido banqueiro. Epstein terá também visitado o escritório de Clinton no Harlem, também em 2002. Do lado de Epstein, está reportado que o seu livro de endereços incluía várias entradas referentes a Bill Clinton, que em 2003 este terá dado uma festa em homenagem ao ex presidente, na qual o próprio não participou (curiosamente, Donald Trump esteve presente nesse evento) e que a Fundação C.O.U.Q, por ele conduzida, doou em 2006 $25.000 à Fundação Clinton. Também na casa de Epstein, foi encontrada uma foto autografada por Clinton e ainda um bizarro retrato em que o ex presidente aparecia vestido com o “Vestido Azul” que o caso Lewinsky tornou famoso. O autor do retrato afirma que a obra é parte de um conjunto de quadros satíricos de vários políticos poderosos, vendido para angariação de fundos, num evento organizado pela escola onde se formou e do qual perdeu o rasto a partir da venda.

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Bill Clinton e Jeffrey Epstein, local não confirmado. https://www.thetimes.co.uk/article/bill-clinton-jeffrey-epstein-and-ghislaine-maxwell-an-uncomfortable-connection-xsbhcxjkq
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Bill Clinton e Ghislaine Maxwell posam para uma foto no jato privado de Epstein https://www.thesun.co.uk/news/us-news/10698533/bill-clinton-poses-with-epsteins-pimp-ghislaine-maxwell-and-a-sex-slave-on-board-private-jet-the-lolita-express/

Bill Clinton teve uma carreira política plena de escândalos sexuais. Em quase todos os cargos que ocupou, há pelo menos um caso de assédio ou relacionamentos profissionalmente impróprios, em que o diferencial de poder e de idade era uma constante. A ligação a Epstein é real e os eventos até agora admitidos pelos seus representantes, mostram essa ligação. Sendo a ligação óbvia, o que não é óbvio é o comportamento do ex Presidente nesse contexto. As ligações são efectivamente laterais? Ou estamos perante um caso de “negação plausivel”, em que os representantes legais de Clinton vão admitindo apenas aquilo que, perante as provas, é impossivel negar? Inegavel é a contradição entre a versão oficial de Clinton e o testemunho de Virginia Giuffre.

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