Políticos Portugueses Querem Reduzir a Política à Luta Esquerda-Direita

Os mais clarividentes para as questões subtis da política, aqueles que mergulham fundo nos meandros das hostes partidárias, e que conseguem entender os seus jogos de bastidores, sabem que o 25 de Abril apenas trouxe a ilusão de um mundo melhor. Os primeiros anos da Revolução dos Cravos foram anos de esquerda, de luta partidária, de agitação nas ruas e nas empresas, de idealismo social. Mas logo os “donos do jogo” foram saindo das tocas e começaram a organizar a corrupção em todos os setores da economia. A banca, os seguros, a construção tiveram uma expansão surpreendente. Se os anos 70 foram de adaptação a esta nova realidade, os anos 80 trouxeram uma economia mais estável e uma primeira aproximação ao resto da Europa, que até então era um território além fronteiras, apenas acessível a alguns. A construção em Portugal prometia casas para todos, um ideal desejado por muitos, sobretudo para os menos favorecidos e para a classe média em geral. Os anos 60 tinham gerado muita pobreza, por uma ditadura desgastada. O glamour dos anos 50 tinha sido fugaz e o 25 de Abril era a lufada de ar fresco que iria animar o povo. Por essa altura o PPD, o CDS, o PS e o PCP eram os quatro pilares da política da época, claramente divididos numa filosofia de esquerda e direita, apesar dos seus líderes tentarem salientar as diferenças de cada força política.

Com o passar dos anos o PPD cresceu em muito devido à dinâmica de Francisco Sá Carneiro que, quase sozinho, aliando-se por vezes ao CDS, tentava criar um espaço confortável para a democracia lutando contra os ideais de esquerda marxista-leninista do PCP ou do socialismo democrático do PS. Mas desde logo o PSD e o PS, enquanto partidos mais votados lideraram as corridas eleitorais, ambos representados por líderes advogados, uma enorme vantagem para um país que precisava refundar todo o sistema de Leis. Consta que neste processo inicial terá participado ativamente a CIA, representada por Henri Kissinger que terá passado por Portugal e, à semelhança do que fez na Grécia em 1974 e 1975 trouxe consigo propostas e apoios financeiros para apoiar estas duas forças políticas para que fossem os dois pilares da democracia, partidos fortes que defendessem a mesma lógica política bipolarizada norte-americana de Democratas e Republicanos, ou numa perspetiva mais económica, Liberais versus Conservadores. Certo é que Álvaro Cunhal revelou-se como um líder comunista moderado e acabou por aceitar a democracia proposta pelo bloco central PSD/PS que aos poucos estabeleceu a ponte com algumas economias mundiais. Portugal deixava o tempo de miserabilismo e pobreza para trás e começou a corrida ao dinheiro. A inocência inicial do idealismo materializou-se numa economia cada vez mais organizada e forte, a caminho do liberalismo puro. E nesse processo muitos oportunistas souberam utilizar os partidos políticos para se projetarem e às suas empresas em teias mafiosas. Teias que envolviam até tráfico de armas em África e que terão custado a vida de Sá Carneiro, Snu Abecassis (sua esposa) e Adelino Amaro da Costa (Ministro da Defesa).

Hoje, todo o idealismo revolucionário resiste quase residualmente na tradicional Festa do Avante e nos sindicatos. O dinheiro tomou conta da política e os milhões de impostos cobrados aos cidadãos permitem aos políticos grandes obras, investimentos económicos de grande dimensão e modernização e melhoramento social. Mas estes milhões atraem também a corrupção que está cada vez mais imiscuída na política. Nunca se falou tanto em corrupção e, apesar dos cada vez melhores e mais modernos métodos da Polícia Judiciária para encontrar este tipo de criminosos, a verdade é que apenas uma pequena percentagem vai parar aos tribunais. O branqueamento de capitais, as contrapartidas e até as tradicionais malas de dinheiro e favores entraram de tal forma na realidade quotidiana que inundam os noticiários. Todos os dias somos cada vez mais afastados da ideia de uma sociedade séria com os inúmeros casos graves de corrupção, transversais a todos os setores da economia. É verdadeiramente desmoralizante. Sentimo-nos impotentes. O que pagamos em impostos com imenso esforço, muitas vezes não se converte em obras para o bem comum da nossa sociedade, mas é desviado para contas bancárias de privados, dinheiro que muitas vezes nem sequer é recuperado. E o lento sistema judicial encarrega-se de fazer uma segunda triagem de corrupção: os que têm melhores influências nos tribunais e melhores advogados conseguem frequentemente escapar quase ilesos.

Mas a grande corrupção começou quando os dois maiores partidos começaram a apelar para governos maioritários, alternando geralmente ao fim de dois mandatos legislativos. Alternam também no poder presidencial e tentam até eleger presidentes do grupo oposto ao do partido eleito para o governo, garantindo assim uma simbiose secreta entre os dois blocos, secretismo muitas vezes com origem na Maçonaria. Mas nos últimos anos, pela proximidade de objetivos entre PSD e PS, houve a necessidade de trazer de novo a ficcionada novela da bipolaridade revolucionária da dialética esquerda-direita. A corrupção criou assim uma forte cortina de fumo para, na sombra, continuar os seus negócios, agora mais protegida do que nunca. A Grande Recessão de 2008 criada artificialmente por bancos norte-americanos deu lugar em 2020 à grande crise económica já designada por o Grande Confinamento. E daqui em diante, os grandes poderes económicos mundiais assumem pela primeira vez de forma global, graças à crise pandémica (que ainda não se sabe bem como surgiu), aquilo a que podemos chamar a Grande Corrupção. E este mega-evento de 2020, o ano zero de uma nova era de sociedades de gestão anarquista, já ganhou o cognome de O Grande Recomeço (The Great Reset). Tudo à grande. E nada melhor para a Corrupção do que outra cortina de fumo, a anarquia nas ruas.

Texto de Pedro M. Duarte

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