Não fujas, luta !

Karl Max terá dito alguns quantos disparates, outros tantos acertos. Mas nenhuma pérola brilha mais que “a religião é o ópio do povo”.

Vamos por partes: o que é ópio? “É uma mistura de alcaloides extraídos de uma espécie de papoula de ação analgésica, narcótica e hipnótica” (ref: Wikipedia). No mundo onde a fantasia é constantemente espancada por uma realidade calculista (Gen 3:19 – “Comerás do suor do teu rosto”), onde encontra abrigo em poucos sítios como Disneylândia e Las Vegas, o ser humano que viva em condições mais desfavoráveis procura sem cessar formas de fugir, de negar, de retirar força  a esta realidade opressora, viajando para uma dimensão infantil (Mat 19:14 – “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas”), onde a imaginação não é limitada pelo enquadramento do tempo presente.

O que é religião? Segundo a interpretação de Lactâncio, o termo provem do latim “religare”, voltar a ligar. Seria então um sistema de dogmas, valores morais, crenças e rituais que permitiriam voltar a ligar o profano ao divino, a criação ao Criador, partes separadas desde o pecado original, ou numa interpretação mais profunda, o despertar da consciência humana (Gen 3:7 – “ Então os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus”). Até ao início do século XX, quando a meritocracia capitalista ainda era um embrião, poucas formas de fuga existiam, restringindo-se à ideia de uma vida melhor após a morte, onde seríamos recompensados por todo o sofrimento e frustração da vida terrena. Até lá, beber para esquecer, e rezar por uma vida melhor.

O fundamento desta ideia manteve-se viva, embora o estado laico , separação entre igreja e estado , lhe tenha trazido nuances: o neoevangelismo fala nos de vida após a morte por formalidade, a “teoria da prosperidade” ( realização NESTA vida) atrai muito mais fiéis do que a ideia de elevação espiritual para um vida futura. Como tudo, o ópio evolui: não só as substâncias que alteram a bioquímica, trazendo novas sensações (marijuana, haxixe, cocaína, anti-depressivos, etc.) se diversificaram e se tornaram “mainstream”, relativamente acessíveis sobretudo no Ocidente, como a ideia de religião e espiritualidade mudou: só voltará a haver uma real preocupação com vida após a morte se os cientistas a provarem ou se a nova Greta Thunberg for utilizada para chamar adeptos a esta causa. Assim sendo, onde está o equilíbrio entre Espírito e a matéria, entre o mundo interior e o exterior? Diria para atentarmos ao exemplo de Madre Teresa de Calcutá, Malcom X, Mohammed Ali: todos estes personagens históricos tiveram uma fortíssima influência religiosa, com a diferença que não foi no mosteiro, no convento ou no templo budista que nos mostraram a força das suas crenças: foi neste mundo, cruel cinzento e  intolerável à piedade. Usaram a sua crença, religião, espiritualidade, (deixo a definição ao vosso critério) para construir o seu carácter, que por sua vez ajudou a construir um mundo melhor. “Deus” não quer que nos subamos à torre de Babel, que meditemos na floresta durante anos ou nos tranquemos em clausura. Um automóvel no stand é lindo, novo, puro , porém não cumpre o seu propósito. “Deus” quer habitar neste mundo, através de nós (Lc 17.21 – “porque eis que o reino de Deus está entre vós.”). E é disto que o mundo precisa: homens e mulheres que arregaçem as mangas e lutem, trabalhem. Homens e mulheres de visão, de carácter incorruptível e fé inabalável em construir um mundo mais justo para todos os seres vivos… Algo me diz que serão extremamente necessários num futuro muito próximo.

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