O Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros (NARC)


Ao caminhar pela Rua Augusta, junto ao local onde hoje se encontra a sede do Millennium BCP, encontramos o Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros (NARC) onde, a partir de 1991, foram realizadas uma série de intervenções arqueológicas no contexto de obra de remodelação do edifício pombalino que visava criar aqui uma série de garagens subterrâneas. Em 1995 abriria ao público o espaço museológico que, hoje (07.12.2020) está fechado ao público e sem data para reabrir…

Os vestígios arqueológicos testemunham uma época em que há cerca de 2 mil anos exista aqui um profundo vale, escavado entre duas ribeiras que se juntavam perto do actual Rossio a um braço do Tejo.

Sobre esta zona estendem-se hoje as avenidas da Liberdade e Almirante Reis. O vale, contudo, já não tem a mesma profundidade de antes, depois de séculos de construções e terraplenagens.
Na sua periferia, na zona da Baixa, encontrava-se um esteiro e praias que eram frequentadas desde o século VIII a.C. por povos do Mediterrâneo Oriental e do Norte de África que aqui vinham buscar metais.

É deste local que nasceu o nome de Lisboa: “Allis Ubbo” ou seja, “Pequena Enseada” em fenício para descrever o local onde aportavam os navios fenícios e cartagineses. Aqui viviam também pescadores autóctones cujas pequenas habitações encontramos no núcleo arqueológico. Tratam-se de habitações de planta rectangular e das quais quatro foram escavadas, todas com muros contíguos, fundações de pedra e paredes de barro e canas (hoje desaparecidas) como ainda encontramos nas casas de adobe do Alentejo. Ao centro da cada uma destas casas foram encontradas fogueiras delimitadas por seixos que aqueciam e iluminavam as casas e permitam a confecção de alimentos no seu interior.

Nestas casas foram encontrados testemunhos das actividades quotidianas destas populações tais como pesos usados por redes de pesca, potes de cerâmica para armazenamento de alimentos ou pequenas taças como aquela que aqui foi encontrada e que tem o desenho de um barco fenício.

O ocaso do poder púnico em Lisboa é assinalado pela instalação da actual colina do castelo do exército do general romano Décimo Júnio Bruto em 138 a.C. A presença romana intensifica-se a partir de então e o desenvolvimento económico da cidade é notável e a cidade acolhe uma densa indústria de transformação do peixe através da salga criando o famoso “garum” que era exportado para todo o Império. Foi precisamente uma destas fábricas que aqui foi encontrada instalada junto à praia que aqui existia e, logo, do ponto de desembarque do pescado e que foi construída no século I d.C. depois das habitações de pescadores pré-romanos que já então tinham sido cobertas por areia e ficando lado-a-lado a uma necrópole romana. Os tanques de “salsamenta” que aqui encontramos são os restos dessa fábrica.

Os cerca de trinta tanques de “salsamenta” da Rua Augusta estavam aqui, longe do núcleo urbano de Olissipo para que os cheiros da produção não chegassem ao centro. Estas fábricas dispunham vários tanques em torno de um pátio central e estavam cobertas de telheiros que os protegiam da chuva e do sol. Era nos pátios centrais que o peixe era limpo das suas vísceras sendo estas e o sangue recolhidos para serem preparados em separado. Depois de cortados em pedaços os peixes eram depositados nos tanques (ou “cetárias”) em camadas intercaladas com sal e ervas aromáticas. Os principais peixes aqui preparados eram a sardinha, a cavala e outros peixes gordos que eram depois exportados para todo o mundo romano mas, especialmente, até Itália.

No pequeno pátio da fábrica de “garum” do Núcleo Arqueológico foram encontradas peças usadas na produção e restos de alguidares de cerâmica onde se faziam as misturas de sal com ervas e cuja composição era secreta e variava de fábrica para fábrica fazendo do seu produto um invejado segredo comercial. Não muito longe dos tanques foram encontradas várias peças que testemunham também um uso habitacional, contemporâneo ou paralelo como um pequeno busto de bronze de uma divindade protectora, um pequeno alfinete de cabelo trabalhado e uma faca de cabo de osso assim como ânforas, peças de cerâmica fina (terra sigillata) que pertenciam, provavelmente, à família de proprietários da fábrica de Garum.

O ocaso do Império Romano com a chegada progressiva e nem sempre pacífica de tribos germânicas a Olissipo, a partir do século V, leva a um recuo do perímetro urbano e ao abandono da região da actual Rua Augusta. A cidade torna-se intramuros e é deste período que data a sepultura de um homem adulto que foi descoberta junto a um dos tanques da antiga fábrica.

Após o período tardo-romano os vestígios que encontramos no Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros pertencem ao período islâmico designadamente a habitações que assim regressaram a esta zona da cidade e que são testemunhadas pela descoberta de peças de várias peças de cerâmica de uso quotidiano como taças, potes e candis que com azeite e pavio serviam de iluminação nocturna.

Pertencentes a datas posteriores encontramos ainda no Núcleo Arqueológico taças e pratos de faiança azul e branca do período dos Descobrimentos, um capitel de coluna e azulejos hispânico-mouriscos de um antigo palácio que aqui existia.

O terremoto de 1755 modificou profundamente esta zona da cidade de Lisboa e a reconstrução pombalina delineou os edifícios que aqui hoje se encontram sendo possível observar no Núcleo Arqueológico a famosa estacaria pombalina e o forno do pão aqui construído no século XVIII e poços que forneciam água aos quarteirões vizinhos.

Rui Martins

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