Da ideologia política

O que significa uma deputada de um partido nacionalista alemão, populista de direita, conservador nacional e social, anti-imigração e eurocéptico apelar aos antípodas para que se levantem contra o anti-liberalismo de um governo conservador australiano a organizar um confinamento sanitário geral contra mais uma onda da alegada pandemia? Como interpretar que a extrema-direita esteja a reclamar os valores do liberalismo – estado de direito, liberdades individuais e até direitos humanos – contra a repetição da indiferença cúmplice semelhante à que levou os seus avós alemães – com muitos outros avós de outras nacionalidades – a organizarem a indiferença perante a organização do Holocausto?

Significa que os ideólogos liberais estão hoje mais próximos – pelo menos em termos relativos – da extrema direita do que no tempo da guerra, pelo menos a partir do momento em que os nazis foram derrotados.

A mentira tornou-se a moeda corrente na política (por exemplo, para justificar as guerras e esconder a corrupção) muito antes da emergência do voto na extrema-direita. Esta reclama, como no caso citado, que os liberais levem a sério os princípios apregoados. Porque está provado que são traidores dos seus próprios princípios, a extrema-direita, mentindo de forma descarada, propõem-se substituir as elites por gente disposta a cumprir o programa liberal sem cedências, contra os pobres, os imigrantes, os trabalhadores, e todas as outras “minorias”.

Os eleitores, como os otários fartos de serem vigarizados, entregam-se aos mais estúpidos e descarados vigaristas. A nível institucional, os princípios, incluindo os princípios constitucionais, como sabemos a respeito dos confinamentos e das obrigações de vacinar, estão reduzidos a cacos. As colunas vertebrais tornaram-se cartilagens.

A esquerda ocidental, essa, depois da prova de realidade falhada na União Soviética e do Partido Comunista Chinês ter decidido adoptar o capitalismo, está na posição de defender o estado social real (o sistema de saúde e a escola públicos), a memória dos 30 anos magníficos do pós-guerra (para os países desenvolvidos) para tentar chegar ao poder. Isso anima os jovens dos EUA, mas na Europa a resistência à perda de influência das esquerdas tem remetido os diversos partidos para aceleradas e desesperadas derivas à direita. Em Portugal, tais derivas são menos aceleradas, mas a influência das esquerdas nos destinos das pessoas (evitar a destruição dos cuidados de saúde em resposta às necessidades dos doentes e a educação das novas gerações para que acreditem no progresso) é ainda menor do que nos países mais desenvolvidos. A base de apoio da esquerda foge porque não quer ser trabalhadora e porque como trabalhadora é cada vez mais maltratada. Prefere ser consumidora e alienada, porque perdeu a esperança numa sociedade diferente da desenhada pelos liberais nacionalistas, mentirosos, corruptos e autoritários, como estes têm de ser para manter a exploração da Terra e dos seus recursos humanos, apesar dos resultados desastrosos pré-anunciados pela ciência e à vista de todos.

Para se opor à hegemonia da ideologia liberal, cabe a quem se lhe oponha renovar as ideologias igualitárias, pois são indispensáveis para salvaguardar as liberdades. (Para uma discussão disso, ver Graeber e Wengrow, The Dawn of Everything, 2021).

No pós-guerra, na EUA e na Europa ocidental, a ideologia (keynesiana) foi a de que a liberdade (de empresa para exploração das propriedades, privadas ou públicas) poderia financiar a igualdade. O reconhecimento dos direitos de cidadania dos trabalhadores animou-os a trabalhar voluntariamente mais e melhor, na perspectiva de a produtividade, o progresso, vir a reduzir cada vez mais a necessidade de trabalhar para as gerações futuras.

A automatização do trabalho, porém, acompanhou a intensificação do trabalho, cabendo aos dirigentes inventar trabalho para ocupar e oprimir os trabalhadores, satisfeitos e agradecidos nos seus postos sociais subordinados, como notou Marcuse logo nos anos 60 (One-dimensional Man).

Há mais de 400 anos que se inventou uma resposta óbvia para situações como esta: o rendimento básico incondicional. No final do século passado, em Portugal, isso foi interpretado como rendimento mínimo garantido (hoje rendimento social de inserção): uma teia burocrática para administrar subsídios para manter os pobres vivos e oprimidos na sua condição social, também conhecida por armadilha da pobreza, versão pobre da condição laboral. A liberdade regulada pelos estados sociais, espera-se sentado há 70 anos, deveria produzir a igualdade que, a cada crise, há quem explique que antes da crise a coisa ia bem encaminhada (daqui a 50 anos o fim das desigualdades seria atingido), mas infelizmente, como se fosse um azar imprevisto, dá-se abruptamente um retrocesso de dezenas anos de cada vez, em poucos dias.

É altura de inverter os termos ideológicos do debate. Atiremo-nos à defesa da igualdade de direitos e oportunidades, independentemente das classes, dos géneros, das nacionalidades, das etnias, da escolaridade, da produtividade, pois essa é a forma de mantermos a liberdade! Nomeadamente a liberdade de não continuar a colaborar e de nos opormos à destruição do  meio ambiente. Estudemos, divulguemos e defendamos o rendimento básico incondicional de todos para todos. Pela ciência, para alívio dos sacrifícios quotidianos, para libertação da nossa imaginação.

Partilhar Artigo

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on google
Google+
Artigos recentes
Inscreva-se no blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para se inscrever neste blog e receber notificações de novos posts por e-mail.

Join 329 other subscribers

Número de visualizações
  • 1.132.590 hits

Deixe o Seu Comentário!