Nova Ciência Requer Novas Escolas e Novos Financiamentos

Será a ciência da Pfizer a ciência que convém à humanidade? Ou será a ciência da Pfizer um instrumento da luta de classes de que falou Warren Buffet, quando declarou a sua classe dos multimilionários vencedora?

Para que serve uma luta de classes que é ganha, de forma inelutável, pelos beneficiários das desigualdades sociais indispensáveis à acumulação de riquezas? Estão-se a salvar vidas ou a enterrar pessoas vivas na miséria e no desespero socio-económico? Que esperança se pode ter no surgimento de sociedades melhores quando à manutenção da crise financeira global se acrescenta a desorientação na luta contra o aquecimento global e outros males ambientais, como os plásticos, a extinção de espécies, a desertificação, a subida dos níveis do mar, etc.? O crescimento do desemprego estrutural, agora acelerado pela luta contra a pandemia do SARS-cov2, é uma doença social negligenciável relativamente à COVID? Fez e fará menos vítimas do que a COVID?

Diz o Instituto Nacional de Estatística: em 2020 “o indicador de clima económico diminuiu em novembro, interrompendo o perfil de recuperação observado nos seis meses anteriores, após ter atingido em abril o valor mínimo da série. Em novembro, os indicadores de confiança diminuíram em todos os setores, Construção e Obras Públicas, Comércio, Serviços e Indústria Transformadora (…)”. O Institute of Policy Studies dos Estados Unidos apurou que as fortunas combinadas dos 647 mais ricos do país cresceram quase um milhão de milhões de dólares (um bilião) entre Março e Novembro deste ano, desde que se iniciou a luta global contra a COVID19. Também entre os empresários a perspectivas de futuro dividem a maioria, que vai ser prejudicada, da ínfima minoria, que beneficia da situação. 

Quanto à disponibilidade das pessoas para serem vacinadas, anuncia-se em Portugal, a maioria não pretende ser vacinada, mesmo sabendo o que é viver sob a ameaça da COVID-19 e da vacina ser apresentada como o único modo de recuperar as liberdades entretanto condicionadas. Em vários outros países, as estatísticas mostram que a maioria da população aceita tomar a vacina, mas à medida que chega a hora de as tomar mais gente evita a tomá-la. Desconfiam das vacinas, da ciência? Ou desconfiam da ciência apressada da Pfizer, a ciência que faz multimilionários?

Nos EUA e no Brasil, presidentes promotores da irracionalidade na política representam, com a popularidade que os levou à presidência, o rasgar do prestígio da ciência, como uma presa aos dentes de predadores nas lutas pelo poder. Porém, a ideia de serem apenas os movimentos neo-nazi-fascistas que usam o prestígio da ciência instrumento de manipulação política não é séria. Não corresponde à verdade. Desde os anos 60, muito antes da existência de partidos neo-nazi-fascistas com eleitores, que se sabe haver o risco de aquecimento global. Não foram esses partidos que esconderam os problemas estruturais, ambientais e sociais, do sistema político e económico predatório e destruidor das pessoas e do planeta. A globalização, apesar das promessas, não serviu maior justiça social. Produziu aceleração da extinção de espécies e mais desigualdades sociais. Com o discurso único, as forças de oposição, tão vivas no século XIX, esgotaram-se e desapareceram, como previu Marcuse em Homem Unidimensional.

No pós-guerra, os investimentos em ciência concentraram-se ao serviço dos militares, na Rússia e nos EUA. É uma ciência ao serviço dos mais poderosos, que a partilham entre si, através do estado e dos negócios imperiais, como os computadores e a internet. A implosão da União Soviética mostrou que o socialismo real foi um logro para a injustiça social, para a sustentabilidade ecológica e para a ciência. Os novos modelos de governação da sociedade, como o dos zapatistas, o autogoverno do povo da Nasa de Cauca na Colômbia, o movimento Dalit e Adivasi na Índia, a democracia assembleária curda e feminista de Rojava, o cooperativismo anti-capitalista ou das zonas de defesa na Europa, como Christiania na Dinamarca ou da região de Notre-Dame-des-Landes em Nantes, onde o governo francês pretendia construir um aeroporto, ou da floresta Hambacher na Alemanha, igualmente ocupada por activistas que impediram a mineração, ou movimentos de resistência à mineração do lítio em Montalegre/Portugal, etc., não são discutidos publicamente. Esta censura mediática e universitária apresenta estas experiências como nados-mortos. Trata disso no meio do excesso de produção de informação, sobretudo publicitária, reconhecidamente exagerada ou mesmo expressamente enganosa. Os financiadores, públicos e privados, explicitamente impõem aos profissionais conformidade com os seus interesses estratégicos, sujeitando-os a formações iniciais apoligistas do discurso único, das hierarquias, dos concursos, das competições, dos direitos intelectuais, dos segredos de estado, de justiça, de investigação, etc. Descapitalizadas, censuradas, isoladas, as potenciais alternativas de governação e as pessoas que por elas se interessam, são incapazes de proteger o planeta, de evitar o desemprego, de formar partidos ou promover a ciência.

A ciência é apresentada como uma colecção de respostas e receitas únicas, pré-fabricadas e universais para os problemas. A ciência que se tornou mestre em fazer perguntas difíceis de responder, respeitadora das pessoas, capaz de dissipar a ignorância, foi dividida em ciência pura, ciência aplicada, teorias, métodos, tecnologias, modelos de negócio, autónomos e incoerentes entre si. A ciência foi-se reduzindo a vendedora de dogmas para os leigos e profissionais, liderando transmissão de autoridade aos profissionais e submetendo-se aos desígnios políticos e económicos dos financiadores. Será que uma ciência social e ecologicamente emancipadora e livre é possível?

As técnicas de governação inovadoras, como o rendimento básico incondicional (RBI) (1) ou a criação de redes de solidariedade grupais para a vida a partir das escolas primárias (2) ou a redução dos tempos de trabalho, são tratadas pelas ciências sociais como os novos modelos de governação. Quando se tornam prementes, são esterilizadas sob a forma de especializações exotizadas e submetidas ao sistema opressivo da imaginação que produz o discurso único: o regime intelectual que proclama não haver alternativas políticas racionais ou úteis ao status quo a não ser que sejam feitas de inovações tecnológicas com sucesso mediático. A imaginação de alternativas de governação ou financeiras são estigmatizadas e esmagadas, como na Grécia de 2015. As alternativas aos planos de cuidados de saúde perante a presença do SARS-cov2, como mostra o caso da Suécia, são irracionalmente tratadas, como se alguém soubesse a melhor maneira de fazer.

A geração melhor formada de sempre em escolas que ensinam a prestigiar a ciência, como autoridade, não é capaz de responder aos desafios ecológicos, políticos e sociais. Está a aguardar ordens superiores de que desconfia. Hesita em acolher a vacinação como um instrumento de harmonização da vida humana com a presença de virus. Impotentes e submissas, as sociedades modernas, amedrontadas, confinam-se tão longe quanto podem da natureza e submetem-se aos interesses das classes dominantes, proprietárias da ciência e dos meios de produção de prevenção da saúde e de cura, sacrificando uma parte crescente de pessoas a viver sem rendimentos.

Embora a luta de classes esteja a ser ganha pelos super-ricos, como diz Buffet, o medo e a desconfiança social entre as pessoas, sobretudo em relação às autoridades, não para de aumentar. O desgaste da legitimidade política das elites e da confiança na ciência, representada no caso pela vacinação, é notório e está representado politicamente por líderes de nível global, mutuamente articulados para canalizar essa desconfiança. Propõem dar prioridade à violência, como nos ordálios, e fazer justiça divina através do uso intensivo, ainda mais intensivo, de bodes expiatórios: imigrantes, ciganos, mulheres, etc.

Ver-se-á como vão decorrer as campanhas de vacinação global, pela primeira vez na história da humanidade. A indústria, seguindo a recomendação da ONU, dispôs-se a planear fornecer toda a população mundial, com o apoio financeiro e logístico dos estados e das respectivas forças armadas. As teorias de conspiração florescem, a par das campanhas mediáticas unilateralmente apologistas das políticas de saúde. A democracia e a ciência, a arte de fazer as perguntas difíceis para quem possa e queira responder, continuam ligadas, neste caso em perda.   

Independentemente do que se passar no período de vacinação que se avizinha, a crise política, a crise de valores, a desconfiança nos valores dominantes vai continuar a traduzir-se em reacções promotoras de irracionalidade, apresentadas como modo de combater as elites e as autoridades. Com os sistemas de ensino focados em promover o discurso único, a menos que sejam abertas avenidas por onde canalizar a ciência que faz perguntas, em vez de oferecer respostas pré-fabricadas, a luta de classes que está a produzir becos sem saída para cada vez mais gente e para a humanidade e o planeta, como um todo, produzirá extrema violência.

Os vencedores da luta de classes, os que beneficiam da acumulação da riqueza, sabem que algo tem de mudar. Mas também sabem, de experiência própria, que tudo pode permanecer na mesma parecendo ter mudado. Que fazer? Seremos capazes de imaginar escolas de solidariedade inter-individual, capazes de resgatar a ciência para nos ensinar a fazer perguntas cognitivamente úteis? Será o RBI-TT (1) um tipo de financiamento capaz de promover tais tarefas de transformação social e cultural?

  1. O RBI é apresentado pelos seus promotores como uma medida revolucionária que não afectará o nosso modo de vida, a não ser nos aspectos positivos: promete acabar com a miséria sem mudar de modelo de governação, antevendo uma sociedade totalmente subsidiada pelos estados. Há os neoliberais promotores do RBI, para quem o estado se deve reduzir à sua função financeira de distribuir dinheiro de helicóptero também às pessoas, e há os promotores do RBI de esquerda, que preferem juntar às funções sociais actuais do estado – em regressão – mais uma outra, a de distribuição de dinheiro dos impostos suficientemente robusto para aguentar as despesas dos subsídios RBI.  O RBI de todos para todos, fora do controlo dos estados, resultado de direitos auto-atribuídos pelos cidadãos a si mesmos, não é uma opção considerada na literatura académica sobre o assunto.
  2. As escolas são imaginadas, ao mesmo tempo, culpadas de todos os problemas sociais e capacitadas para os resolver. Embora sejam instituições cujos resultados práticos têm sido o reforço das desigualdades sociais, são também a esperança última de muitos dos mais críticos prognósticos sociais. O “ascensor social”, esperam, irá resolver o que não resolveu até hoje: a iliteracia, as desigualdades sociais, o recurso a recursos irracionais para procurar vidas melhores. Entender a escola como um meio privilegiado de estabelecimento de laços sociais para a vida entre grupos de crianças, uma família organizada em rede de mútuo apoio e solidariedade para a vida, a par e diferente das famílias de origem e das famílias construídas e reconstruídas em função das relações sexuais, não é ideia sequer considerada para reforçar e amenizar o individualismo. 

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