A Memória das Crises Académicas na Primeira Pessoa

 Texto apresentado por Artur Pinto, organizador principal de comemorações anuais que reúnem antigos “associativos” das universidades portuguesas, no 60º aniversário da “crise de 62”, em que participou.

 

Senhor Presidente da República, Magnífico Reitor, senhor Comissário Executivo das Comemorações do 25 de Abril, Alberto Martins, querida amiga Isabel do Carmo, João Cravinho, Manuela Juncal, Sofia Branco

Colegas:

Como já repararam, encontro-me ainda um pouco debilitado. O que acrescido ao facto de não estar habituado a falar em público, nem ter muito jeito para isso, me levou a decidir por um depoimento escrito. É mais seguro e não andarei às voltas.

Antes, no entanto, não quero deixar de enviar daqui um grande abraço ao Eurico Figueiredo, um dos nossos grandes dirigentes e tribunos, que hoje comemora 84 anos e que, felizmente, está aqui connosco.

E lembrar que esta é nossa primeira celebração sem a presença do Jorge Sampaio que, à semelhança de 62, esteve sempre connosco, nunca nos abandonou. Tenho, isto é temos, para com ele um sentimento de profunda gratidão. E rendo-lhe a minha homenagem e com ele a todos os dirigentes e activistas, e são muitos, que já nos deixaram.

Mas, indo às memórias na primeira pessoa

Quando cheguei à faculdade, em 61/62, era ainda, de algum modo, um jovem provinciano, pois só chegara a Lisboa no Outono de 1955. Entretanto tinha feito vida na província. E todas as férias escolares eram passadas em Castro Daire, minha terra natal, mesmo depois de estar em Lisboa. Ou seja, passava quase meio ano na província. Um certo espírito provinciano, de apego à terra natal, prevalecia.

Até que entro para Direito e quando ainda me habituava a um novo ambiente, cai-me em cima, com uma força inaudita, a Crise Académica e tudo vai mudar.

E tudo vai mudar porque passo a ser parte activa de um movimento de contestação, que surge de onde menos se esperava, que vem de dentro dos que deveriam ser o futuro do próprio regime. Porque a minha participação nos plenários, mostra que faço parte das decisões tomadas, mostra-me o que é a democracia participativa. Porque posso aceder aos dirigentes e estar ao lado deles, porque estão ali junto a nós e não distantes e inacessíveis. Dirigentes nos quais detenho plena confiança, porque os comunicados que nos chegam, relatam a verdade dos factos. Comunicados cuja máquina de produção e de distribuição a PIDE nunca conseguirá apanhar. Estava a experienciar a democracia. Porque passo a fazer parte da malta, essa entidade informal, mas perfeitamente coesa, que se junta e se movimenta como se fosse uma família. A malta vai ao cine-clube, a malta vai às manifestações, a malta encontra-se na cantina e convive como até então não sucedera. E porque deixou de haver raparigas, um conceito muito ligado a género (os rapazes e as raparigas) e passou a haver as miúdas, um conceito muito mais emotivo, que implica cumplicidade, partilha, companheirismo. Eram as nossas miúdas que iam connosco às manifestações, que corriam a fugir da polícia, a nosso lado, ( e como disse Mário de Carvalho, no seu último livro, nunca mais parámos de correr) eram elas que constituíam uma boa parte das equipas de distribuição dos comunicados, que participavam em todas as reuniões e plenários. E quem sabe se no dia em que uma jovem estudante de Medicina sobe à tribuna do Estádio Universitário e arenga perante a multidão de colegas, quem sabe se não foi aí que, simbolicamente, a Isabel do Carmo, deu início à libertação da mulher. E os lenços na cabeça, parte da identidade feminina, começam a desparecer.

E tudo vai mudar, também porque passo a ter acesso a um manancial de informação, que eu não suspeitava existir. Informação que me vai cair em catadupas, da política à literatura, passando pelo cinema e pela música. Discute-se tudo quando nos encontramos na Cantina: desde os acontecimentos do dia, à literatura, ao cinema e à política. A guerra da Argélia (os acordos de Évian fizeram agora 60 anos), Cuba, naturalmente, Fidel e o Che e as lutas de libertação em África e a guerra do Vietnam. Curiosamente a guerra de Angola, como então se chamava, não era ainda motivo de grande atenção, talvez porque estivéssemos convencidos, como a maioria do povo português, que aquilo não passava de meia dúzia de indígenas armados de catana e que, portanto, o exército rapidamente daria cabo daquilo. Mas já lá ia um ano.

É graças ao convívio com a malta que chego a escritores, e cito ao acaso, como Roger Vaillant, ou Hervé Bazin, ou Sarte ou a Cesare Pavese e Vasco Pratolini. O convívio com outros já mais politizados, faz-me chegar, pela primeira vez ao comunismo e ao trio constituído por Marx, Engels e Lenine, em boa medida graças à cave do Brito. E conheço Frantz Fanon. As expressões fascismo e anti-fascismo e luta anti-colonial, passam a fazer parte do meu vocabulário e percebo que há mais luta contra a ditadura do que a Oposição Democrática. Tomo conhecimento com o PCP e começo a ter acesso ao Avante.

O Cine-Clube Universitário leva-me para outro cinema, que não o dos filmes do S. Jorge ou do Tivoli, ou as cowboiadas do Olímpia. E descubro o neo-realismo italiano. Entre outros, quem não se lembra do filme Uma Vida Difícil, cujo final nos empolgará a todos quando Alberto Sordi enfia um par de estalos no patrão e o segundo balcão do Império se levanta a aplaudir? Era, também, a nossa raiva e a nossa vingança. E a nouvelle-vague francesa com, por exemplo, O Acossado, Disparem sobre  Pianista, Jules e Jim? E como, em grupos pela cantina, cantávamos Les Bougeois Sont Comme des Cochons, de Brel, ou Mouloudji com Le Déserteur, de Boris Vian, ou ainda Brassens e Je Suis La Mauvaise Herbe e Yves Montand com Chant des Partisans, Les Cannnuts e Auprés de Ma Blonde que em português dará Ó Liberdade, como é bom, é bom pelo Coro dos Amadores de Música, de Lopes Graça. E o Ay Carmela, da Guerra Civil Espanhola ou o Kalinka pelos Coros do Exército soviético.  Eram os convívios tão peculiares à nossa geração, onde tudo sucedia: o amor, a amizade, a política e a contestação.

Então e o Zeca e Adriano? Ainda não, em 1962 ainda estão no Fado e nas baladas de Coimbra e só no ano seguinte, em 1963, Zeca com Os Vampiros e Bairro Negro e o Adriano com Trova do Vento Que Passa, chegam até nós e tornam-se nos nossos cantores de protesto de referência.

E a malta vivia tudo isto com alegria de viver, mesmo depois de virmos de uma manifestação e das cargas da polícia, conscientes de que estávamos  a ser protagonistas de um grande movimento solidário de contestação. E nunca perdemos o humor que nos levava a adaptar a conhecidas músicas, letras que inventámos ali, no momento e que eram as nossas cantigas de escárnio e mal dizer: quem não se lembra do Fado do Dia do Estudante, esse relato pormenorizado, “Reuniu-se a malta, então/ Numa grande confusão/À porta das faculdades”, e jocoso de tudo o que se passou nesse dia, ”chegados ao Campo Grande, houve porrada da grande, só jantaram os doentes”, quem não se lembra da Marcha da Cantina em protesto contra a qualidade da comida,” passa a Bocage passa e a barretaça vai enfiar”, da Polícia aos Molhos (por causa dos gases choram os meu olhos)? No fundo, não deixava de ser um certo divertimento, uma certa alegria e muita irreverência. E nunca senti que estivéssemos sob tensão, excepto na Greve de Fome que, aí sim, senti que, pela primeira vez, os nossos olhares se cruzavam com alguma ansiedade, talvez porque tivéssemos a noção de que estávamos encurralados na cantina, sujeita ao cerco policial. As fotografias da época são disso reveladoras.

E eu, no meio de tudo isto, começo a abandonar o meu provincianismo, a ampliar e a diversificar a minha visão do mundo e a me tornar num cidadão urbano, cosmopolita.

Com a Crise Académica de 62, perdemos muita da inocência, mas mantivemos a nossa utopia. Utopia que nos fez continuar a luta pelos anos seguintes, recorde-se a prisão de 95 estudantes em 64/65 e a greve de 69. É certo que não derrubámos o regime, que só o movimento dos Capitães viria a conseguir, mas a nossa luta abalou fortemente o regime de Salazar, destabilizou a estrutura da sociedade portuguesa, despertou muitas consciências para a realidade social e política do país e deixou uma marca indelével em todos. Por isso, hoje estamos aqui, de pleno direito, no dia em que a democracia também ultrapassa a ditadura, em tempo. E orgulhosos do nosso passado. Perdemos muitas batalhas, sofremos muitas cargas policiais, fomos expulsos e presos, perseguidos, mas a ditadura nunca conseguiu abafar a voz dos estudantes ou destruir as suas associações. Fomos nós que vencemos, não eles, nós fazemos parte dos vencedores. E isso ninguém nos pode tirar.

 

Aula Magna

24 de Março de 2022

60º Aniversário da Crise Académica de 62

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