Valorizar a Ciência Independente

Como combater a pandemia do corona vírus, ainda não é claro. Claras são as pandemias em curso e que já causaram e vão continuar a causar mortes e, sobretudo, sofrimento inaudito e tecnicamente evitável: a fome, as guerras, o proibicionismo das drogas, a expulsão de pessoas dos seus modos de vida, o crédito social que se prepara para ser automatizado. Quero acrescentar uma, a que vou dar mais atenção agora: a sociopatia.

Os cientistas sociais costumam reduzir isto a um problema de desigualdades. Eles sabem medir desigualdades e gostam de fazer gráficos com isso. Até porque isso os ajuda a não ter que suportar o cheiro nauseabundo da miséria, da tortura, da humilhação, da exploração, da podridão moral, de que somos fautores e vítimas ao mesmo tempo.

A sociopatia é uma pandemia que costuma agravar-se em sintomas de guerra, e que ainda não começou a descer. Terá recomeçado nos anos 80, já lá vão quarenta anos, com manifestações variadas, sempre mais graves, depois do pico que ocorreu na primeira metade do século XX, com as Guerras Mundiais. Trata-se de uma pandemia de longa duração e de lenta propagação. Os sintomas na política europeia e mundial são cada vez mais claros.

Daqui a uma década, talvez, já estejamos a cair nas estatísticas desta pandemia e, então, será possível caracterizá-la melhor. Talvez seja possível ultrapassar a negação e a ignorância induzidas pela urgência e pelo medo, próprios das emergências. Será possível encontrar uma vacina para a sociopatia? Nesse caso, para felicidade geral, nunca voltaremos a viver um pico desta pandemia, a guerra?

Sintoma do vigor da pandemia da sociopatia é o prazer com que as elites, acompanhadas pelos respectivos povos, comparam a protecção contra os efeitos do novo vírus que produz a COVID 19 com uma guerra. De facto, tal como numa guerra, perante a suspensão da acção social – sobretudo a acção política, que pode ser considerada acção dos inimigos, sujeita a tribunais criminais ou de guerra – as tropas são o melhor que cada nação pode oferecer, do mais mal pago que se possa imaginar, como os médicos do Serviço Nacional de Saúde e enfermeiros em Portugal, e dos mais sacrificados, suportando aos ombros todas as contradições sociais, incluindo a falta de material de protecção e falta de munições, desde ventiladores e a tal vacina.

Não é um caso nacional. É um caso global. A médica de Nova York que se suicidou, é um sintoma da irresponsabilidade das organizações de saúde naquele país. Foi a forma que encontrou para lidar com a responsabilidade de estar na linha da frente, sem retaguarda. Carne para canhão. O facto de noutros sistemas de saúde a situação ser diferente, isso não invalida estarmos em presença de um fenómeno global, não apenas nas suas causas – a extrema rapidez da difusão do vírus – como nas estratégias de contenção – seguir a política de guerra social contra o vírus organizada na China.

Nota metodológico-conceptual: as notícias e os conhecimentos fornecidos pelos meios de comunicação e pelas escolas são os principais sintomas da doença, já que a medicina anda à volta de problema, mas não chega lá. Ele há o stress, o trauma, o stress pós-traumático, o assédio, o abuso sexual, o burn-out, mas a sociopatia continua por identificar. A sociopatia não resulta de uma natureza humana primordial, boa ou má, que não existe. A sociopatia é produzida e reproduzida todos os dias por cada um de nós. Faz vítimas crianças e jovens que, no processo de se tornarem adultos, não transportam as referências emocionais que não foram criadas no seu tempo próprio e não se suicidaram. Isto é, as verdades oficiais são ideias e representações doentias porque são produto de uma sociedade doente e, ao mesmo tempo, reproduzem a doença social.

Há quem diga que, enquanto sociedade, estamos em estado terminal, de tal modo o nosso aspecto é repugnante. Tal como a pneumonia pode levar à morte, também a sociopatia pode ser causa última do finado de um modo de viver em sociedade. Para fazer tal diagnóstico, há quem compare a situação actual à que se viveu na II Grande Guerra, em que, teoricamente, o nazismo foi derrotado pela aliança entre liberalismo e socialismo, de que os melhores exemplos são os países nórdicos e os piores exemplos são as superpotências da Guerra Fria.

Para fazer a autópsia em vida da sociedade que surgiu da II Guerra, o leitor deverá preparar-se para as náuseas que sentirá seguramente ao ler este texto. Por favor, não dirija o seu vómito para cima deste modesto escriba ou de outro qualquer personagem, como um político de que não goste, ou de todos os políticos – cujas imagens são, de facto, odiosas. Use a sua reacção natural para pensar, para pensar diferente, para encher o seu imaginário da necessidade de produzir ventos capazes de dispersar a pandemia da sociopatia na sua cabeça e pelo mundo fora, incluindo na comunicação social e nas redes sociais.

Em resumo: a questão de que se trata aqui não é a de criar uma revolução, isto é, criar uma nova pandemia – de capitalismo empreendedor, socialismo humano, de ecologismo ou feminismo ou antirracismo ou queer, por exemplo – ainda mais forte do que aquela de que sofremos hoje. A questão é fazer um bom diagnóstico da doença, apesar de estarmos nós próprios a sofrer dela, de tal modo que seja possível começar a produzir um antídoto: tempo e liberdade para libertarmos, todos e cada um, das nossas grilhetas incorporadas no nosso firmware.

Se a guerra estivesse inscrita no gene humano, como teria sido possível as cruzadas se terem expandido para todo o mundo? Se os indianos e chineses do século XVI tivessem entrado em guerra com os ocidentais, quando estes lhes apareceram pela frente para substituir as redes comerciais terrestres muçulmanas, como poderiam as naus fazer negócio? Quatrocentos anos depois, os Vietnamitas expulsaram os norte-americanos, depois dos franceses, daquelas terras. Fizeram-no porque declararam a guerra, tal como todos os representantes dos povos colonizados o fizeram por essa altura. O problema é que a guerra inventada pelas cruzadas, ao contrário das outras guerras, é eterna, como explicou o presidente George W. Bush, depois do 11 de Setembro de 2001. O antidoto encontrado pelos movimentos anti-imperialistas do século XX para a guerra imperial foi a guerra de libertação nacional, a guerra nacionalista, isto é, a incorporação do espírito imperial e belicista destilado pela civilização ocidental, o que se chama modernização. Os movimentos anti-imperialistas e anti-coloniais adoptaram, também eles, a lógica do estado-nação, isto é, a construção de um aparelho centralizado de decisão capaz de vencer a guerra contra o poder colonialista e, por maioria de razão, todos os poderes tradicionais e locais, esmagados e submetidos à maneira ocidental pelos novos estados independentes. Estados tanto mais assanhados nas suas políticas de modernização quanto menos podiam contar com administrações e pessoas habituadas a viver em estado de guerra nacional contra os inimigos internos e externos.

Na prática, as elites revolucionárias educadas nas universidades ocidentais, usando línguas ocidentais, imaginaram cumprir os seus desígnios anti-imperialistas tornando-se extensões administrativas dos estados mais organizados, formando para isso quadros ocidentalizados para constituírem as elites nacionais. Apenas tiveram que decidir qual seria o inimigo principal (a qual das superpotências da Guerra Fria se deveriam aliar) e aniquilar os adversários – os seus antigos companheiros que preferiam outro inimigo principal.

Os vanguardistas que sobreviveram viveram com recursos que nunca imaginaram ter (e de que não precisam, a não ser para prosseguir o estado de guerra permanente prescrito pela civilização ocidental, em nome da Fé no Império). A vida dos povos tornou-se caótica, moderna, animada, ao serviço daqueles que, nas elites, tiveram recursos para sobreviver como elites, agora nacionais. Muitos outros (compatriotas?) vivem do lixo, que substituiu as tradicionais dificuldades por miséria moderna. Nalguns casos inclui a fome, a sede, a mortalidade por causas facilmente evitáveis, a doença mental, etc.

A sociopatia é uma doença endémica na civilização ocidental, com diferentes expressões sintomáticas, como nacionalismo, racismo, misoginia, e sujeita a picos que conduzem a guerras. A chamada paz, o acordo entre elites que reconhecem mutuamente ser preferível continuar a guerra por meios políticos, contra os respectivos povos e territórios alvos da exploração, baixa os sintomas da doença entre as pessoas comuns. Sobrevivem com anti-corpos, isto é, sociopatia latente, que se manifesta em explosões ocasionais, mas geralmente a vergonha é suficiente para a conter sem sintomas, ao menos aos olhos dos outros concidadãos, igualmente em negação da sociopatia.

As ânsias de retaliação podem moderar-se e as ideias humanistas e filantrópicas aliviam a bílis social. As elites e os seus súbditos aprendem a disfarçar ou, sinceramente, procuram construir estados de rosto humano, como se costuma dizer. Noutros casos, como nas revoluções comunistas, foi tentado quebrar o enguiço através da ditadura do proletariado: a continuação do estado de guerra até que o fim da luta de classes surgisse. A sociopatia terá sido controlada na sociedade, mas a epidemia na nomenclatura foi devastadora. É preciso encontrar uma vacina eficaz. Onde está a ciência? Porque nos falta a ciência? Que ciência nos faz falta?

O estado de guerra faz de qualquer oponente um Velho do Restelo: perante os riscos das guerras, a sociabilidade humana adensa-se, reduz-se a pensar com o corpo, a pensar exclusivamente na sobrevivência. Tal como acontece com os sequestrados ou os prisioneiros ou as crianças, a imaginação adaptativa e o rasgo solidário tornam-se minimalistas. A saudável submissão transforma-se em doentia subordinação. O fundamental é conhecer bem o sequestrador, como recomenda o polícia bom, companheiro do polícia mau, ambos empregados pelas elites que beneficiam da situação: business as usual.

A ciência, como todos nós, nasceu já sob sequestro da guerra. É admirável a sua capacidade de se libertar das condições da sua própria existência. De tal modo a guerra é desumana, que a ciência que é usada para a servir se recusa a aceitar estar sob sequestro. Em parte, essa recusa é uma vigarice – mero sintoma da sociopatia geral – e, noutra parte, é uma arte de oposição ao rumo de exploração que a primeira parte da mesma ciência proporciona. Seremos capazes de valorizar a ciência independente, como aquela que desde há 40 anos prognosticou o aquecimento global, e a reformar a ciência subordinada, como a serventuária do capital de guerra.  

One comment

  1. OK. Vamos por partes:
    1- Sociopatia- É produto do ambiente e é caracterizado pela indiferença, egocentrismo e hostilidade face aos outros. Tal.vez seja o resultado do niilismo, provocado pelas redes sociais , consumismo etc.
    2- O que é a Ciência? Para respondermos a esta pergunta, temos que olhar para o trabalho de Bacon (o “pai” da indução ), que descobriu que os objetos do mundo físico, quando são olhados de uma forma objectiva faz com que emergam padrões diferentes daqueles que são descritos pela experiência subjetiva.
    A “Ciência Independente”, teóricamente seria possível se a Ciência em si, estivesse fora de interesses relacionados com lobies e políticas. Coisa que passados 50 anos desde a II Guerra Mundial, raramente acomnteceu.

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