Da Sabedoria: Conhecimento e Fé

Hipertexto Pitágoras: Escola de Atenas

A fé na verdade que nunca se conhecerá com toda a segurança é partilhada pelo vulgo e pelo sábio, dependendo ao mesmo tempo da confiança mútua que existe em cada momento.

As relações entre o conhecimento e o poder são, ao mesmo tempo, óbvias (alguém terá de sustentar a vida dos intelectuais) e obscuras (o percurso das ideias em sociedade não pode ser antecipado). As ciências sociais nasceram no século XX, da profissionalização dos progressos cognitivos feitos durante o século XIX para transformar a filosofia social em ciência. Ao tornarem-se um campo académico reconhecido e prestigiado, prescindiram de manter o rumo estratégico original. Adoptaram como orientação dominante a explicação religiosa de haver uma radical diferença de natureza entre o meio ambiente (regular e estável) e a humanidade (cultural e histórica). Dessa maneira, as ciências da frase ciências sociais não são ciências, no sentido tradicional. As ciências da frase ciências sociais são um modo de partilhar com as ciências o prestígio cognitivo sem partilhar com elas a história, as instituições, os métodos, os conceitos.

As ciências sociais partilham com as ciências a sua presença nas universidades. Entre si, as ciências sociais desenvolveram-se de modo disciplinar, praticamente estanque e hiperespecializado, através de departamentos e grupos de investigação auto-centrados. As políticas científicas que desenvolveram a profissionalização das ciências e a expansão das universidades a novos públicos procuram utilizar as ciências e as ciências sociais para finalidades práticas. O valor comercial da produção de tecnologias para a vida moderna inspiradas na inovação científica é incomparável com o valor das ideias das ciências sociais, sobretudo quando estas são usadas para prevenir as inovações sociais. Por isso, a rentabilidade das ciências naturais é superior e a popularidade das ciências sociais que procuram a transformação social é temida pelos financiadores. Do que resulta a orientação política de diferenciar negativamente, em relação às ciências naturais, os investimentos e as despesas na formação inicial em ciências sociais, sobretudo em momentos de crise. O que provoca uma atitude defensiva por parte das ciências sociais, divididas entre si e isoladas das ciências mais prestigiadas e com redes sociais de profissionalização mais densamente instaladas na sociedade.

Para os contemporâneos, as vicissitudes da história das ciências e das ciências sociais são singulares, complexas e misteriosas. Mas se observarmos o aconteceu às sabedorias de outras eras, como as da Antiguidade, poderemos quiçá encontrar os mesmos panos de fundo que tecem as relações do poder com o conhecimento, independentemente da especificidade arqueológica da história das instituições e organizações que já não existem. Assim será mais fácil observar a floresta sem nos perdermos a observar as árvores.

Entre os panos de fundo a considerar, há a revolução axial e a criação de impérios e religiões institucionalizadas a partir de pessoas formadas por escolas baseadas em textos, em ruptura com as tradições orais. São os textos recuperados da Antiguidade que dão testemunho do trabalho que foi necessário à instalação das primeiras modernizações das sociedades ocidentais. Por modernização devem entender-se as lutas para a naturalização da ideia da liberdade humana para tirar proveito da natureza e do trabalho das outras pessoas para benefício de elites criadoras de ideias morais de alcance universal, em substituição das ideias de submissão da humanidade à natureza, incluindo a sua extensão cósmica.

Nas escolas dos mistérios gregas havia um processo de iniciação para aqueles que se comprometiam a aprender a disciplina filosófica ensinada. Cada iniciado deveria ser capaz de usar os ensinamentos de um modo particular, a seu modo. Só através da interpretação e incorporação pessoais do sentido do processo de iniciação, a procura da Sofia, a procura da sabedoria, o iniciado poderia aspirar a um dia atingir o tempo de libertação.

Os gregos antigos, ao contrário dos militares e juristas romanos, faziam das palavras um concerto polissémico. A filosofia era a criatividade pessoal de arrumar as palavras como num poema, com múltiplos sentidos a interpelar a sociedade. Era um apelo à capacidade de auto-organização e auto-determinação, independentemente dos constrangimentos institucionais e sociais. A execução de Sócrates é a demonstração da heroicidade necessária, idealizada pelas escolas filosóficas, para se ser livre. O prestígio da ciência moderna tem os seus próprios heróis sacrificados, como Galileu ou Giordano Bruno.

A classificação em três fases da actividade dos estudantes sinaliza a entrada, a permanência e a libertação das pessoas através do exercício filosófico promovido pelas escolas. Aqui está outro pano de fundo: esta mesma classificação é aplicável a todas as disciplinas, orientais, maçónicas, académicas, etc. Estar fora e passar a estar dentro, através de uma licenciatura, por exemplo. Profissionalizar-se numa actividade directamente relacionada com a licenciatura. Estar em condições de agir sabiamente em sociedade, em espaço público, independentemente das escolas de proveniência, usando os conhecimentos adquiridos nas profissões e universidades para fins mais gerais, é o que se chamava intelectuais, nos anos 60 e 70, no auge da liberdade de expressão. As informações e os conhecimentos ao serviço da sabedoria, guias para intervenções institucionais acima das organizações, são livres. A essas intervenções chamam iluminação, conspirações, teoria, política, consoante que se queira enfatizar a sua capacidade cognitiva, misteriosa, erudita ou prática.

Uma das formas de expressão da sabedoria é o uso das linguagens comuns para transmitir, ao mesmo tempo, várias camadas de sentido reconhecíveis por todos, cada um ao seu nível, conforme a familiaridade com ideias mais complexas. O uso da linguagem comum exige das expressões de sabedoria serem reconhecíveis pelo vulgo, não iniciados, iniciados, profissionais e sábios de outras escolas. Porém, os iniciados, profissionais e sábios da mesma escola interpretam as expressões linguísticas de sabedoria de uma forma mais rica e completa do que as restantes pessoas, pela razão simples de estarem mais a par da história da produção e reprodução dessa modalidade de sabedoria. Quem não partilha a história dessa escola interpreta a sabedoria como uma natureza própria daquele tipo de gente, que podem assemelhar-se entre si como os membros da mesma etnia também parecem gémeos aos olhos não treinados de quem vive longe dela. 

Quando alguém atinge o estado de libertação, a transmissão dessa sabedoria não é técnica. Não se pode fazer um download para um chip que se incorpora noutro corpo humano, transformando-o, dispensando-o de percorrer o caminho da sabedoria. Nas escolas, na Grécia Antiga como hoje, quem vive a libertação (ou não) é um professor, um exemplo, um transmissor, um agente epidémico de conhecimento. Conhecimento que, todavia, precisa de ser aprendido. Precisa de ser incorporado, adaptado, trabalhado por cada iniciado, por quem esteja disponível, interessado e empenhado em adquirir conhecimentos ou sabedoria.

A sabedoria inclui a fé. Inclui a necessidade de uma fonte de energia que faz o iniciado continuar a trabalhar sem saber se a libertação é um estado real ou é apenas um truque, uma esperança, criada pelos mestres para esconder a verdadeira fonte de sabedoria, se é que isso existe. Quem sabe quando e se numa vida haverá oportunidade de viver a libertação, a luz, a esperança, a visão, os diferentes nomes e representações sociais do que seja a sabedoria? A maioria das pessoas nem sequer se põe a caminho.

O leigo jamais saberá se a sabedoria existe. Resta-lhe ter fé, quer a siga ou não. Aquele que viveu o estado de libertação, porém, aprendeu que a fé continua a ser necessária para os que já viveram a libertação. A fé dos sábios é fundada na sua própria experiência. Como explicou Sócrates, sábio como era, a única coisa que sabia que sabia é que nada sabia. Quer dizer, a experiência de libertação não é uma mudança de estado da natureza para um estado mais elevado. Ao invés, é o reconhecimento da necessidade de rotina na produção de conhecimentos, eurekas que se repetem sem cessar, eventualmente de um modo mais célere após a primeira experiência de libertação. Tal como acontece com o futebol, todos têm potencial para fazer habilidades extraordinárias, mas só raros têm sucesso profissional. Do mesmo modo, com o treino todos podem ser sábios, mas raros têm a fé necessária para gerar a energia indispensável para persistir contra moinhos de vento, à procura daquilo que ninguém vê e que de facto não existe a não ser para os crentes: os que reconhecem a sabedoria do sábio e os sábios suficientemente seguros de si para se saberem sábios quando têm consciência de nada saber; suficientemente independentes da sua profissão e dos reconhecimentos para oferecerem a vida como prova de convicção do valor da sua singular sabedoria.

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