Leslie Wexner – Entre o Segredo de Vitória e a vitória temporária da transparência

Ao contar a história de Jeffrey Epstein, dos seus crimes, das suas vítimas e dos seus cúmplices, mais do que uma pergunta se destaca. Uma dessas perguntas é relativa ao ínicio da sua carreira de banqueiro de investimento.

Quem confiou a Epstein a gestão de milhões e biliões de dolares de fortunas privadas? Quem lhe deu a aura de legitimidade que lhe permitiu circular à vontade entre a alta sociedade de Nova Iorque, Miami, Estados Unidos e Ocidente em geral? Há alguns nomes que se destacam quando se procura responder a essa pergunta. Um deles, o de Leslie Wexner.

Les Wexner, fundador e presidente emérito da L Brands Fotógrafa: Astrid Stawiarz/Getty Images

Leslie Wexner é um homem de negócios bilionário, fundador e actualmente presidente emérito da L Brands, gigante retalhista que detém a marca Victoria’s Secret, entre outras.

O inicio da sua carreira foi semelhante a muitos “self made billionaires” que o nosso sistema económico tanto tem criado nos últimos anos, no sentido em que nada no seu percurso é “self made”. Começou a trabalhar na loja de roupa dos pais e mais tarde, com dinheiro emprestado por familiares, fundou a sua própria loja, baseada em produtos baratos, mas que originavam um fluxo de caixa mais elevado que a venda de produtos mais caros, permitindo assim maiores lucros.

Esses lucros permitiram a Wexner expandir o seu negócio. Abriu a sua segunda loja em 1964, em 1976 abriria a centésima. Dois anos depois, aumentou a sua vantagem sobre a competição ao integrar verticalmente a sua cadeia de valor, adquirindo a Mast Insduistries, empresa que se dedicava à manufactura e importação de roupa.

É nos anos 80 que a expansão da L Brands acaba por abranger a aquisição da Victoria’s Secret, na altura uma pequena start up começada pelo casal Roy e Gaye Raymond, como projecto de fim de curso de um MBA. Foi após a aquisição por Wexner que a marca adoptou a prática que lhe valeria a fama e reconhecimento para além do sucesso comercial, de usar super modelos a quem denominavam “angels”, para promover os seus produtos. O Victoria’s Secret Fashion Show, iniciado em 1995, viria a ser uma das maiores fontes de reconhecimento da marca. Teve a sua última edição em 2018, depois de alguns anos de diminuição de vendas e de controvérsias relacionadas com os padrões de beleza feminina promovidos pelo desfile em especifico e pela marca em geral.

Além da Victoria’s Secret , a L Brands enquanto conglomerado inclui um número alargado e diversificado de marcas, tais como , a Bath & Body Works, La Senza e Henri Bendel. Tem ainda investimentos em marcas como Abercrombie & Fitch, Bigelow Tea, e White Barn Candle.

Associada à marca Victoria’s Secret, existe ainda a marca Pink, cujo público alvo é a faixa etária 15-22 anos e que teve uma presença no Fashion Show desde 2006 até a sua última edição em 2018, desde 2006, o Victoria Secret’s Fashion Show, dedicado, obviamente, à lingerie, tinha uma secção que promovia uma marca focada numa faixa etária que inclui menores de idade.

A ligação entre Wexner e Epstein, começa nos anos 80, está relatada como próxima e terá durado até 2007. Em 1987 Epstein assumiu a gestão dos activos de Wexner, algo que na altura foi considerado anormal. Epstein era ainda pouco conhecido no mundo da alta finança e Wexner tinha já uma fortuna avaliada na ordem dos milhares de milhões de dólares. Mais tarde, Wexner viria a ceder a Epstein o uso da Herbert N. Straus House, uma mansão situada próxima da Fifth Avenue, em Nova Iorque. Em 1991, Wexner dá a Epstein poder legal sob a forma de uma procuração, no sistma legal americano, power of attorney. Desde 1991, Epstein tinha então poder quase absoluto sobre os activos de Wexner. Epstein foi também um dos curadores da Fundação Wexner entre 1992 e 2007. Segundo o actor Tom Arnold, numa surreal entrevista dada ao Podcast QAnon Anonymous, para que Epstein entrasse no conselho de curadores da fundação, Wexner afastou a sua própria mãe da lideranca da organização.

Nos anos 90 vários relatos chegam às lideranças da L Brands, descrevendo que haveria um homem que se identificava como recrutador de modelos para a Victoria’s Secret e que estaria a usar esse suposto papel para agredir sexualmente mulheres jovens(neste contexto, seriam, adultas). Esse homem era Jeffrey Epstein. Se Wexner tomou alguma medida na altura, não é claro. O que é claro é que o banqueiro tinha uma enorme influência sobre o magnata e que, por exemplo, no caso do catalogo da Victoria’s Secret, o recrutamento era feito por agências e não por agentes independentes. A primeiras denúncia oficial de um caso em que Epstein teria usado a sua ligação à L Brands para assédio ocorre em 1997 e em 1996 Epstein havia já agredido outra vítima numa propriedade pertencente a Wexner.

Alicia Arden denunciou à policia local ter sido assediada no contexto de uma conversa sobre recrutamento para o catalogo da Victopria’s Secret Rozette Rago para o The New York Times

O corte de relações oficial entre Epstein e Wexner ocorre em 2008, mais de dez anos depois desta queixa e um ano e meio depois de Epstein ser acusado pelas autoridades da Flórida. Quanto à fundação, em Fevereiro de 2020, foi publicado um relatório pela firma de advogados Kegler Brown Hill + Ritter Co., LPA. Principais conclusões? “Epstein não teve nenhum papel na elaboração de orçamentos, finanças ou contabilidade da fundação” e que “Epstein não tinha nenhum papel na gestão das bolsas atribuídas pela fundação, nem noutros programas”.

A fundação Wexner continua a operar. hoje, como antes, tem um objectivo mais ou menos bem definido. A promoção e formação de lideranças politicas, empresariais sociais, culturais e religiosas na comunidade judaica dos EUA e do Estado de Israel. A sua ligação a Epstein levantou debates e questionamentos dentro da comunidade, que, genericamente, reflectem o debate sobre o uso da filantropia por grandes empresas e bilionários, com o objectivo de comprar a sua própria reputação.

Wexner pode alegar que cortou relações com Epstein, que não sabia das actividades criminosas de Epstein, que o lugar de Epstein na gestão da sua fundação era simbólico. Pode até afirmar que Epstein o defraudou. O que não pode negar é que havia conhecimento de alegações de abuso pelo menos desde os anos 90, alegações que se solidificaram muito antes do infame processo de 2008, nem pode negar a cultura de misoginia e assédio de uma empresa que vendia ao mundo inteiro um ideal estético de feminidade definido por e para homens. Nem pode parar o escrutínio que o seu envolvimento com Epstein acaba por trazer ao seu envolvimento noutros escândalos de abuso sexual. Ainda menos poderá negar que foi ele um dos primeiros a dar a Epstein o dinheiro e prestigio que lhe permitiram actuar com impunidade durante tantos anos.

Les Wexner, aos 83 anos, vê o seu legado de empresário e filantropo atirado à lama, pela companhia que escolheu e pelo que escolheu que a sua companhia representasse. No entanto, nem ele, nem os seus herdeiros parecem chegar a sentir consequências para além de embaraço e dificuldades em vender a que outrora foi a jóia da coroa do seu império.

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