As lápides romanas do Prédio Almada (Lisboa)

Na Baixa de Lisboa, na Travessa do Almada encontramos o Prédio Almada com as suas quatro inscrições romanas.

O “Prédio Almada” foi construído em 1749 por João Manuel de Almada e Melo, que o Terremoto de 1755 encontraria em Lisboa enquanto comandante da guarda do rei D. José I, na Real Barraca. Figura muito importante do regime como brigadeiro, Presidente da Junta da Marinha do Porto, governador militar das províncias do Minho e Trás-os-Montes, Presidente da Junta das Obras Públicas (1763-1786), Governador das Justiças e Casa do Porto (1765-1786) e Diretor do Depósito Público do Porto (1774).

João Manuel de Almada destacou-se à frente da Junta das Obras Públicas, onde modernizou a cidade de Lisboa, abrindo e renovando eixos viários, construindo obras públicas, contribuindo para a formação de um novo modelo arquitetónico e na definição de novas normas para o licenciamento de obras particulares.

Além de político e militar, Almada e Melo foi também um dos portugueses que na sua época mais se interessou sobre questões ligadas ao ensino e à cultura tendo trazido o Teatro Lírico até ao Porto e criado a Aula de Náutica. Neste contexto não é de estranhar que tendo sido informado pelos construtores do Prédio Almada que haviam sido encontradas na abertura das fundações para o prédio, em 1749, quatros lápides romanas (entre, certamente, outro espólio, hoje perdido) as mandou encastrar nas paredes do prédio por forma a as preservar e a informar o transeunte da riqueza histórica deste local de Lisboa.

Uma das lápides Romanas do Prédio Almada

As quatro aras romanas do Prédio Almada são monumento nacional desde 1910:


Uma dedicatória de Lisboa a um pretor romano: “Felicitas Julia, Olisipo, dedica a Lúcio Cecílio, filho de Lúcio Celero, recto questor da província da Bética, tribuno do povo e pretor”.


Uma dedicatória de Caio Julio a Mercúrio e a César Augusto.


Assente numa coluna, é uma dedicação de Tito Licínio Cerno, de Lychaonia (hoje na Turquia) à “mãe dos deuses, a grande Ida da Frígia sendo nobre duunviros Cássio e Cassiano, e cônsules nobilíssimos Marco Atílio e Afroniano, e sendo governador Gaio”.


Mais uma dedicatória à mãe dos deuses, desta feita de “Tito Licínio Amarantio por voto dedicou à mãe dos deuses”

Uma dedicatória de Lisboa a um pretor romano: “Felicitas Julia, Olisipo, dedica a Lúcio Cecílio, filho de Lúcio Celero, recto questor da província da Bética, tribuno do povo e pretor”.

A referência a “Felicitas Julia” recorda a recompensa dada pelo Império Romano a Lisboa através da atribuição da cidadania romana aos seus habitantes numa época em que esse privilégio era dado apenas a título muito excepcional. “Felicidade Júlia” assumiu assim o estatuto de município assim como todos os territórios 50 Km em redor que ficaram, como ela, isentos de impostos, ao contrário dos territórios que rodeavam a cidade. Quanto a “Olisippo” a leitura é mais polémica mas poderá estar em torno do celta “lys” (“Tejo”) com o sufixo fenício -ippo (de recordar que, não muito longe da Travessa do Almada foi encontrada uma ara funerária em fenício). Tradicionalmente, pensava-se que Olisippo vinha de Ulisses que Marciano Capela e Solino, diziam ter conquistado a cidade. Outros faziam a ligação a “hippo” (cavalos) com os cavalos velozes que se diziam existir em Monsanto.

Quanto ao título “Questor” referido na ara tratava-se do primeiro passo na hierarquia política romana e habitualmente era preenchido por membros da classe senatorial com menos de 32 anos. A Bética era uma das 3 províncias romanas em que se dividia a Hispânia com capital em Córdova. Os “Tribunos do Povo” (Tribunus plebis) assumiam o primeiro cargo que Roma permitiu aos plebeus e eram o mais importante contrapoder ao Senado. Podiam convocar a Assembleia da plebe (“Concilium Plebis”), convocar uma reunião do Senado, de propor novas leis, intervinham em nome dos plebeus em assuntos legais e, mais importante, de interpor um veto às ações dos cônsules e outros magistrados para proteger os interesses da plebe. Por fim, os pretores mencionados nesta ara eram um dos títulos que Roma concedia a quem comandava um exército em campanha ou a quem servia como magistrado. Uns e outros exerciam a sua autoridade no “Pretório” (“praetorium”) o qual podia ser o quartel-general do seu exército, ou o tribunal onde se reunia com a sua equipa ou tinha a sede do seu governo provincial.

A dedicatória de Caio Julio a Mercúrio e a César Augusto reflecte a provável pertença à actividade mercantil de Caio Julio já que Mercúrio é um mensageiro e deus da venda, lucro e comércio. A dedicação a “César Augusto” refere a admiração e a busca por influência política local por parte deste mercador dado trata-se de uma referência directa a Augusto, o Imperador romano (63 a.C.-14 d.C.) em cujo governo Roma se tornou num poderoso império austero e centralizado, mas muito desenvolvido do ponto de vista cultural e económico. Dado que Caio Julio era um mercador deve ter prosperado muito neste contexto económico tão favorável e esta prosperidade e isto levou-a dedicar a ara ao deus do comércio e, simultaneamente, ao imperador.

A dedicação de Tito Licínio Cerno à “mãe dos deuses, a grande Ida da Frígia sendo nobre duunviros Cássio e Cassiano, e cônsules nobilíssimos Marco Atílio e Afroniano, e sendo governador Gaio”. Foi feita por mais um provável mercador (já que não era normal existirem soldados ou administrativos frígios na Lusitânia) à sua divindade favorita na sua Lychaonia (hoje na Turquia) nativa. Esta “Mãe dos Deuses” ou Deusa mãe, simbolizava a fertilidade da natureza e o culto espalhou-se por toda a bacia do Mediterrâneo sendo também conhecida por Cibele e associada ao ciclo natural e agrícola da vida-morte-renascimento ligada à ressurreição do seu filho e amante Átis.

Os duúnviros (em latim: duumvir, “um dos dois homens”; plural: duoviri, “os dois homens”) eram magistrados que exerciam a sua função em conjunto com outro. Estes pares de magistrados eram uma peça essencial da administração imperial e a dualidade do cargo era uma forma de reduzir a possibilidade deste ser exercido com corrupção e de aumentar a capacidade e qualidade da função. Quanto à expressão “cônsules nobilíssimos Marco Atílio e Afroniano, e sendo governador Gaio” é uma forma convencional de datar a inscrição já que seria possível facilmente referir a que época se referia a ara através do conhecimento do ano em que estes cidadãos prestigiados haviam assumido essas funções. No exemplo desta ara Marco Atílio Régulo foi um político da gente Atília da República Romana eleito cônsul por duas vezes entre 299 a.C. e 246 a.C.

No Prédio Almada encontramos ainda uma segunda dedicatória à mãe dos deuses, desta feita de “Tito Licínio Amarantio” outro provável mercador estrangeiro exercendo a sua actividade comercial em Olissipo.

Rui Martins

Uma resposta

Leave a Reply