O Problema Central da Humanidade não tem Expressão Política

As teorias são melhores ou piores conforme aquilo que são capazes de mostrar, conduzindo a atenção para o centro dos problemas. Neste momento, mais do que é costume, o centro dos problemas é aquilo que muda. Embora também seja verdade que qualquer mudança ou transformação nos modos de vida carrega, com certeza, grande parte daquilo que foram os modos de vida anteriores. A demonstração de qual seja a teoria mais adequada ao momento será feita pela história. Será feita pela história se a memória for guardada.

As gerações mais novas, com 35 anos ou menos, por exemplo, terão informação histórica suficiente sobre o que aconteceu na crise financeira de 2008, quando tinham 13 anos ou menos? Se não tiverem informação sobre o que eram as expectativas sociais que fundavam as motivações de vida das pessoas integradas no sistema, motivações que mudaram desde então, criando um novo normal para as gerações que não ficaram desiludidas, pois estavam ainda em idade escolar, como podem participar no debate político sobre como reorganizar a vida hoje, em função das novas circunstâncias? Se esse tipo de informação não circula nem está presente, a não ser na memória reprimida das gerações que viveram a crise com algum impacto nas suas vidas, como é que as diferentes gerações podem discutir política entre si, como pode a experiência da vida circular entre gerações, que solidariedade entre gerações se pode esperar que ocorra?

Aquilo que se aplica às gerações, do mesmo modo, se aplica às nacionalidades, às classes sociais: houve países e classes que beneficiaram da nova situação, criada a partir de 2010, e outros que foram prejudicados. No caso das etnias, do sexo, do género das pessoas, não houve um impacto transformador tão grande como a respeito das nacionalidades e das classes. Os direitos humanos têm vindo a ser desrespeitados com alguma indiferença dos estados que, porém, têm admitido apoiar os movimentos sociais respectivos, na condição de estes se submeterem às regras de financiamento-vigilância das organizações não governamentais. Indirectamente, a situação destes movimentos sociais, como de todos os outros, está em perigo pelo avanço da popularidade dos partidos estranhamente conhecidos como populistas (de facto, todos os partidos políticos têm por objectivo ganhar votos do povo). Tratados como novos ricos, incomodam os partidos e políticos instalados que os povos querem despejar. Para muitos eleitores, à falta de outros modos de o fazer, pobre democracia, votam em políticos racistas e neo-nazi-fascistas que trazem consigo a promessa (verdadeira) de mudança de regime. Mudança de regime aparentemente mais aceitável pelas classes dominantes do que a mudança de política financeira proposta por Varoufakis, em nome do Syriza, e sufragada pelos eleitores gregos, em 2015.

Há quem note que a crise social, pandémica, laboral, financeira, política, de 2020, é a consequência da incapacidade das classes dominantes e, em particular, das suas políticas financeiras, de resolverem os problemas estruturais que motivaram a crise de 2008. Mas pode também notar-se que a situação actual é consequência da inexistência prática de oposição aos planos tecnocráticos das classes dominantes. Por exemplo, fora do campo da finança – onde continua a parecer impossível acabar com os paraísos fiscais, que ninguém tem coragem para defender na praça pública, tal como continua a ser impossível fechar Guantanamo ou saber o que se passou ou passa com as prisões secretas da CIA –, a economia, a educação ou a ciência continuam a ser entendidas como parte da solução e não parte do problema que reproduz crises, sem parar.

Assistimos hoje ao desejo generalizado de voltar ao “normal”, expressão que se refere directamente ao modelo da normal que também é usado pelos epidemiologistas para antever o decurso de uma doença. Ainda que os governos europeus avisem que vai haver um novo normal e que o velho normal não se poderá voltar a viver, as pessoas continuam a esperar voltar ao normal.

Este modelar da mentalidade social pela tecnocracia, pela normalidade, não pode ser mais evidente senão no tempo em que, de surpresa, foi possível parar a economia intencionalmente, politicamente, em grande parte do planeta, reduzindo a poluição de forma evidente e reduzindo a produção ao essencial para que possamos viver. Apesar dos problemas ambientais serem de primeira importância, sobretudo para as novas gerações, as pessoas e até as oposições desejam ansiosamente voltar ao normal. Voltar a ter empregos para que os patrões lhes deem dinheiro para poderem ir fazer as compras indispensáveis à sobrevivência e à dignidade que, a quem não tenha dinheiro, são negadas.

Claro que, como bem avisam os governos, não haverá normal à espera. Haverá mais um tempo histórico a viver por quem vive. E vivemos também das memórias. Infelizmente, vivemos sobretudo de memórias falsas. Vivemos as memórias estereotipadas daquilo que imaginamos hoje terem sido tempos felizes vividos antes – só porque fomos dos que lhes sobrevivemos. Vivemos memórias do normal que custou mais ou menos a realizar e que, em todo o caso, por um lado já passou e, por outro lado, nos parece confortável comparado com o desespero, com a impotência actual. Então, partidariamente, essa impotência é representada pelo regresso ao nacionalismo e às suas diferentes expressões políticas do século XX: estado-social, comunismo e nazi-fascismo. A impotência dos partidos ecologistas para desenharem novas normalidades imaginárias de futuro é a prova evidente de como as transformações sociais em curso estão em roda livre. O problema central para evitar o estado de guerra generalizado, fazer a paz com o meio ambiente, não tem expressão política. Eis o maior risco para a humanidade.  

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