Vem aí o neo-medievalismo

O bom médico despe o paciente, examina-o dos pés à cabeça, inspecciona-lhe a boca, cheira-o, observa-lhe o andar e a postura, em busca de sinais. Era assim que o meu médico pediatra me recebia há 60 anos, mesmo que eu lá fosse apenas queixar-me de uma borbulha na ponta do nariz. Além disso, o bom médico leva a cabo um inquérito cerrado aos sintomas. Os sinais são dados objectivos, observados pelo médico. Os sintomas são dados subjectivos, descritos pelo próprio paciente.

O diagnóstico do corpo social passa por aspectos análogos: é preciso procurar sinais e sintomas.

(Loop sobre Tempos Modernos, de Chaplin, 1936)


Da dona-de-casa caçada na rua por um microfone abelhudo, a Noam Chomsky que não pode sobreviver sem microfone, é o desatino geral

Daqui donde estou, bombardeado ao minuto por notícias e imperativas vacinais, ouço donas-de-casa e motoristas em pânico dizerem que «a democracia é muito bonita, mas há quem não a mereça». Ainda mal recomposto de tamanho arrepio, ouço Noam Chomsky afirmar que quem não toma a vacina deve degredar-se de livre vontade ou, caso não o faça, ser isolado à força do resto da sociedade. Isto, vindo de um cientista da cognição, leva a suspeitar que a vacina teve nele efeitos secundários (cognitivos) nefastos.

Tudo isto me desperta na memória uma velha frase adoptada pelos anarquistas há mais de 100 anos: «há mais luz nas 24 letras do alfabeto do que em todas as constelações do firmamento» [Guerra Junqueiro, 1850-1923, citado por António Gonçalves Correia].

Ora, aparentemente, as luzes apagaram-se e apenas ficou uma sopa de letras. Ou trevas.


As crianças vistas como um perigo público

Espera-se agora das crianças de tenra idade que aprendam a falar sem poderem observar a expressão labial dos seus tutores. Têm igualmente de aprender a empatia e a comunicação emocional a partir do exemplo de adultos emburcados. Sairá daqui uma geração tatibitate-sociopata?

As autoridades públicas, sentindo-se talvez enfadadas por não encontrarem nada melhor a fazer, decidiram ver nas crianças um perigo para a humanidade adulta. Nem é preciso as crianças atingirem a idade púbere e a capacidade de transmitirem coisas como a hepatite C, a sida e outras – logo a partir dos 5 anos de idade passam a ser consideradas um perigo público. Estamos perante uma aquisição «civilizacional» sem precedentes nos 300.000 anos de história da humanidade.

Entretanto, como a vacina de facto não impede o contágio, quando um pimpolho acusa a presença do bicho mau, manda-se para a jaula uma turma inteira. Toma, que é para aprenderes a não acusar positivo nos testes; só passas, se tiveres negativa.

Em escolas onde a performance em contacto directo com o público é parte essencial da aprendizagem (como sucede nos conservatórios), reina o descalabro: nuns casos apenas podem comparecer as pessoas que apresentam certificado digital de vacinação, noutros casos é preciso apresentar teste negativo, noutros casos é preciso teste e certificado, noutros casos a apresentação é suspensa …


O povo acha… o povo sente… o povo quer… os portugueses são…

Certas frases cuidadosamente reprimidas durante décadas nos meios democráticos são hoje lugar-comum em todos os quadrantes políticos. Abrimos um jornal ou um telejornal e lá tropeçamos infalivelmente em «os Portugueses querem…».

Trata-se de falar em nome de toda uma população, exprimindo o seu pensar e o seu sentir, sem no entanto ter recebido mandato expresso. É uma espécie de doutrina política metonímica – o que eu penso, todos pensam. Tal é o caso do Presidente da República, assíduo utilizador deste tipo de frases. Quando ele diz em tom peremptório «os portugueses querem estabilidade» – antes mesmo de se terem realizado quaisquer votações universais sobre o assunto –, estamos perante alguém que, na ausência de um paracetamol providencial que lhe corte o verbo febril, tenderá a transformar a democracia num regime autoritário conhecido ou por inventar. Estas tiradas são também uma forma de manipulação de massas: repetindo todos os dias a mesma frase, de manhãzinha até à noite, é natural que uma certa ideia de «estabilidade» se vá entranhando nos eleitores, como a coca-cola («primeiro estranha-se, depois entranha-se»).

Conseguirá o sistema imunitário do corpo social debelar esta terrível infecção, ou sucumbirá a ela?


A culpa é daquele menino…

No Natal de 2020, em plena expansão da pandemia em Portugal, os dirigentes políticos não hesitaram em clamar: «a culpa é vossa, seus malandros, mais o vosso maldito Natal». Tivessem eles perguntado atempadamente, e qualquer velhota analfabeta das Beiras lhes teria explicado o óbvio: com o inverno, vem o tempo das gripes e outras infecções do trato respiratório. Não há nisso surpresa nem culpa. É sazonal e incontornável. Com o inverno de 2021, vamos pelo mesmo caminho. Cá estamos para ver o que mais vão os governantes inventar desta vez.

Já quando foi o descalabro económico mundial de 2008-2009, cujas consequências políticas e financeiras explodiram em Portugal em 2011, a Troika e o governo de Passos Coelho recorreram ao mesmo truque: «a culpa é vossa, seus esbanjadores». Na realidade, como toda a gente veio a saber, a crise foi causada pela especulação financeira; o resto da sociedade não foi aí metida nem achada. Daí que no contrato de empréstimo do FMI a Portugal esteja escrito, preto no branco: o empréstimo (a ser pago por toda a população, com excepção dos bancos) destina-se exclusivamente a capitalizar os bancos; se o Governo português ousar aplicar um só cêntimo noutro sector da sociedade que não sejam os bancos e o reembolso da própria dívida, o país sofrerá punições severas. Contudo, Passos Coelho insistia, no preciso momento em que assinava este contrato: «a culpa é vossa, seus piegas esbanjadores».

Truque velho, mas sempre na moda: por mais disparates que faça a elite política, económica e financeira, a culpa é sempre do mordomo. Ou do motorista.

A imputação de culpas de índole moralista é sintoma de potenciais afecções ditatoriais. A transformação da governação racional da sociedade num assunto moral é apanágio de todos os sistemas de opressão. É natural que assim suceda, pois nenhuma razão lógica, material ou científica pode justificar (no sentido de tornar justa) a opressão de um povo inteiro por uma minoria privilegiada – neste campo só as tergiversações morais, teológicas e metafísicas podem arguir.


Reerguendo barreiras

Por toda a parte a União Europeia ergue muros contra a movimentação interna e externa das populações. Num dia, os ideólogos do neoliberalismo bramam contra um suposto défice populacional e o envelhecimento da população. No dia seguinte, bramam contra a chegada de meia dúzia de jovens migrantes e refugiados, afirmando que a Europa não aguenta a «vaga» de migrantes. N’importe quoi

Face ao surto de uma nova variante de covid-19, a Europa apressa-se a imputar culpas a alguém fora da Europa (sem qualquer prova científica, como viria a confirmar-se) e ergue novas barreiras entre a Europa e a África Austral, esse lugar onde os ocidentais há 600 anos só põem os pés para pilhar recursos.

É claro que, quando os grandes interesses económicos assim o exigem, as barreiras são provisoriamente levantadas, como aconteceu quando a liga inglesa de futebol exportou para Portugal os seus jogos com maior afluência de público – provocando o caos material e sanitário –, para logo a seguir reerguer uma barreira no trânsito entre Portugal e a Inglaterra.

Recentemente Carlos Moedas, o novo presidente da Câmara de Lisboa, propôs uma solução para a crise da habitação que só contemplaria os lisboetas residentes há mais de 10 anos. Os restantes ficariam do outro lado das muralhas da cidade. Significa isto, entre muitas outras coisas, que as famílias que moram na zona metropolitana de Lisboa, mas vêm trabalhar diariamente em Lisboa, seriam impedidas de morarem na capital – ainda que muitas delas já lá tenham vivido durante várias gerações, antes de a especulação imobiliária as expulsar para a periferia. Nitidamente, Carlos Moedas deveria ter-se candidatado à câmara de Jerusalém, não à de Lisboa.

Vemo-nos pois à beira de um regresso à compartimentação medieval, com o Mundo dividido em raças e castas. De caminho, claro está, reinstaura-se o apartheid.


O quadro clínico

Resumamos então o nosso quadro clínico:

– uma elite mediática e política que fala em nome de todo um povo, sem dele ter recebido mandato;
– uma elite mediática que distorce e mal-interpreta os dados estatísticos, nomeadamente os dados relativos à pandemia (seja por iliteracia, seja por má-fé – não nos compete fazer julgamentos de intenção, mas apenas constatar os seus efeitos objectivos), transformando a luz em trevas;
– uma elite mediática e política que chuta para fora as culpas dos seus próprios disparates ou das forças da Natureza; noutros tempos, chamava-se a isto «castigo divino»;
– o reerguer de muros e outros entraves à circulação das pessoas, como na Idade Média, imputando culpas às populações e pondo-as umas contra as outras;
– a mistificação das causas e processos dos fenómenos naturais;
– o silenciamento ou punição (por meio de perda de emprego e outros direitos) das vozes divergentes da corrente hegemónica;
– etc.

Este quadro clínico aponta para uma infecção ditatorial em curso. Qual o desfecho e qual a estirpe, ainda estamos para saber. Mas os sinais estão lá e são claros.

Se a infecção alastrar e agravar, corremos o risco de passarmos de um regime neoliberal (que já de si é caso para uma intervenção cirúrgica de urgência que nos salve a todos da morte) para um regime neomedieval, com a apropriação mobiliária e imobiliária a perder definitivamente todo o pudor, as barreiras entre concelhos a serem reinstauradas, a cobrança de taxas locais a ultrapassar os limites da sobrevivência, o juízo crítico a ser amputado pela catana moral, a anulação do direito de objecção, etc.

Por favor, senhor doutor, diga-me: de que mal terrível padecemos nós?

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4 respostas

  1. De um mui antigo feudalismo, que hoje retorna pela acção de seus descentes, enraizados à séculos no seio da Europa e que espalham pelo mundo uma vez mais, o seu fel, o seu cancêr e despeito pela humanidade. Sua malevolência dissemina-se com assombrosa rapidez, pelo domínio tecnológico alcançado.
    Os “Senhores das Castas” assumem o seu papel sem pudor. O véu sobre o trono da pirâmide, em breve será retirado.
    Tende cuidado com os “romanos” que vos oferecem presentes.

  2. Excelente análise da realidade actual que nos cerca e que a meu ver é fruto de uma longa doutrinação e acções selectivas descuradas por muita gente que só agora acorda do “entorpecimento”. Não conseguindo de momento “recitar” aquele dito: ….estão a maltratar, perseguir, prender os ciganos!…como não sou cigano não me importa; estão a prender, perseguir, maltratar os judeus!….como não sou judeu não importa. às tantas só já restam as pessoas com que me identifico e quando as perseguições, prisões e maus tratos continuarem é que se acorda que se andou tempo demais distraído.

  3. Na mouche Rui. O Illich já falava de iatrocracia há várias décadas e ela aí está no seu esplendor, para garantir a soberania da plutocracia global. Transcrevo minha tradução de poema do vilipendiado filósofo italiano Giorgio Agamben, inspirado num outro do poeta bretão Armand Robin (que citei num post no meu blog: https://respigadordanet.blogspot.com/2021/02/dois-poemas-sobre-o-estado-do-mundo.html):

    Foi abolido o amor
    em nome da saúde
    depois será abolida a saúde.

    Foi abolida a liberdade
    em nome da medicina
    depois será abolida a medicina.

    Foi abolido Deus
    em nome da razão
    depois será abolida a razão.

    Foi abolido o homem
    em nome da vida
    depois será abolida a vida.

    Foi abolida a verdade
    em nome da informação
    mas não será abolida a informação.

    Foi abolida a constituição
    em nome da emergência
    mas não será abolida a emergência.

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