Porque é que a política está disfuncional? (II)

Tem sido gerada uma grande confusão entre o império e o capitalismo. À esquerda e à direita tem dado jeito falar de imperialismo, uma mistura entre capitalismo e império, cuja utilidade é manter o vulgo impotente: inconsciente das suas potencialidades individuais, sociais e colectivas. O que se pode fazer face ao imperialismo senão aguentá-lo?

Nas últimas décadas, o capitalismo tornou-se o único jogo disponível. A oposição resiste e colabora. Com tal oposição, nem mesmo a refundação do capitalismo, sugerida por Sarkozy e pelo The Economist, se mostrou necessária.

Como é possível os povos continuarem a aguentar a exploração capitalista? A resposta é, estão subjugados pelo império que lhes impõe que colaborem com ele, alegando precisamente a verdade: à falta de imaginação, e também por medo e falta de moral, resta-nos competir de forma a promover o capitalismo, esperando anestesiados que as promessas de bem-estar, paz, progresso se realizem, mesmo contra todas as evidências.

 

Esta é a segunda e última parte do artigo que começa aqui.

A disfuncionalidade das políticas decorre deste reconhecimento: se a sociedade como está é a melhor que se pode imaginar, faltando apenas um governo de que nos pareça mais simpático e fotogénico, como acontece paulatinamente cada vez mais desde o pós-guerra, ou como também acontece na China e na Rússia, então qual a diferença estrutural entre a esquerda e a direita? Qual é a diferença entre o crédito social chinês e o Great Reset de Davos?

Como explicar o entusiasmo da União Europeia com a democracia ucraniana, aquela que proibiu a existência de cerca de uma dezena de partidos e foi incapaz de organizar um cessar-fogo nas regiões separatistas durante os últimos anos, tendo preferido armar-se em vez de desenvolver a economia do país? Será coincidência que a tal entusiasmo correspondam as críticas anteriormente inaudíveis à srª Merkel por ter dado prioridade aos interesses económicos da Alemanha e da União, em vez de aos interesses militares da NATO e de enfrentamento com a Rússia? De que democracia se fala na Ucrânia, quando a União Europeia convive com críticas de “iliberalismo” na Hungria e na Polónia, e o Reino Unido e a Suécia se mantêm em duríssima perseguição do jornalista Julien Assange, declarada fora da lei pelos direitos humanos da ONU? Ou após a condenação por violação dos direitos humanos, pela ONU, a respeito do tratamento dispensado aos refugiados sírios, no Verão de 2015? Tratamento que já se verificava e continuou a acontecer nas fronteiras mediterrânicas da União. Onde estão o respeito pelas obrigações internacionais dos direitos humanos, do estado de direito, da democracia, em particular nos media, na União Europeia?

A explicação pode ser o efeito de unidade produzido entre os estados pela ameaça nuclear russa, que se colocou na posição de desafiador da impunidade do domínio imperial dos EUA e da NATO, durante a época da globalização. Todos temem a irracionalidade nuclear e o desafio colocado nesse patamar. Voltámos à psicose da Guerra Fria, aquela que os belicistas dizem hoje ter sido um equilíbrio de razões de mútua dissuasão entre dirigentes sensatos, designada sobre o acrónimo MAD (mutual assured destruction). O entusiasmo pela guerra manifestado por muitos liberais e outros moralistas decorre do efeito de protecção que leva as pessoas e as sociedades a protegerem-se umas atrás das outras, e atrás dos seus estados, precisamente na ausência de condições de exercício de práticas democráticas. Melhor do que o medo do desemprego ou da morte, o medo da guerra garante a submissão dos povos e das pessoas, e a mobilização das administrações para servir as lógicas imperiais mutuamente opostas.

Finalmente, após décadas de falta de investimento, falta de saber o que fazer do futuro, a União Europeia parece ter acordado, dizem os belicistas. Há um mundo de investimentos lucrativos em brinquedos de guerra, nada privados, mas de obsolescência que nem precisa de ser programada. Gastam-se imediatamente com o uso.

O pretexto de fazer a paz é o melhor para se fazer a guerra. Como dito assim parece pouco credível e pouco lógico, a luta das democracias contra os totalitarismos, como o nazismo, o comunismo e o Putin, parece mais convincente. Embora o Segundo Mundo, o espaço comunista, tenha deixado de existir, a retórica da Guerra Fria foi retomada, pois ainda não houve tempo de inventar nada melhor.

O grande derrotado, claro, é o povo ucraniano, feito pela democracia militarizada, feito de homens heróicos (e mortos), a quem o ocidente protege as mulheres e filhos que puderam fugir e não foram capturados pelos traficantes de seres humanos. Algumas, entretanto, quiçá compreendendo melhor o que está à sua espera, preferem voltar para a casa em massa. A União Europeia em paz, para estas pessoas, é menos protectora do que a sua terra em guerra.

Os povos europeus, já estamos avisados, serão vítimas económicas no imediato: terão de pagar os esforços de guerra que jamais votaram ou decidiram e alinhar com os nossos imperialistas. Democraticamente?

A intoxicação ideológica organizada depois do pós-guerra cresceu do estilo de vida americano, apresentado como esbanjador, consumista, umbiguista, viciado pelas indústrias do entretenimento e das drogas ilícitas na depressão optimista: imagina-se que se vive no melhor dos mundos possível, em vez de haver liberdade para imaginar outros mundos possíveis.

A Guerra Fria, continuada pela NATO, mesmo após o desmantelamento do Pacto de Varsóvia, qual profecia que se auto-realiza, está de volta, agora na modalidade de confronto ocidente-oriente que substitui o confronto capitalismo-socialismo, tendo pelo caminho desenterrado as Cruzadas anti-islâmicas (que fizeram consenso entre Putin e Durão Barroso, em representação da União Europeia, então galardoada com o prémio Nobel da Paz).

A guerra da Ucrânia mostra, mais uma vez, que todas as armas do mundo, todas as estratégias dos poderes nucleares, financeira e militarmente, são muito pouco face à convicção das pessoas comuns. O Putin terá imaginado ser recebido como libertador dos russófonos e dos ucranianos, incomodados com o poder institucional os nazis. Se assim foi enganou-se. Mas daí a dizer que os ucranianos vão ganhar a guerra e, assim, defenderão a paz no resto da Europa, vai um passo que é melhor ponderar.

Os ucranianos, evidentemente, são os grandes perdedores desta guerra: viram as suas vidas viradas do avesso, e partirão para o que vier depois da guerra em péssimas condições. Se a solidariedade agora é o que é, qual será a solidariedade americana e europeia em tempos de paz… Se os manda-chuva na Ucrânia poderem manter as suas riquezas, será uma vitória para eles e apenas eles.

De imediato, a União Europeia, para além das consequências económicas da guerra, irá viver o domínio inusitado dos falcões atlantistas, alimentados por orçamentos reforçados seguramente para fazer a paz que até agora nos faltou.

O erro estratégico das oposições à situação tem sido focarem-se no capitalismo, ou melhor, nos capitalismos nacionais, ficando automaticamente reféns dos interesses imperiais que ligam superiormente os estados e as empresas entre si. Ao evacuar da política as lutas contra o imperialismo e contra as guerras, focando-se exclusivamente na economia, as oposições não escrutinam as estratégias imperiais que, na prática, enquadram as possibilidades e oportunidades políticas e económicas. Hoje, as elites empenham-se na guerra sem escrutínio político. Os aspectos democráticos das instituições políticas ficam apáticas, paralisadas, sem instrumentos de acção ou reflexão, perante o maniqueísmo da guerra.

A luta contra o imperialismo não é uma luta contra os americanos ou sequer contra o presidente norte-americano (ou russo). É uma luta híbrida. Além da parte física e emocional, de ódio generalizado perante a pesporrência autoritária, violadora, torturadora e assassina, das máquinas de guerra e das suas economias corruptas, há a propaganda. Propaganda manifestamente imperial, tanto na crise financeira de 2008, como durante a pandemia, como agora na guerra: os partidos ficam sujeitos à propaganda imperialista que lhes é imposta globalmente através da comunicação social avençada, hipnotizante, viciante, nada democrática.

O império não é apenas a sua expressão espectacular, militarista, mediática, política, que a propaganda do medo nos mostra ser comandada pelo Biden, pela Comissão Europeia. O império é também a nossa quotidiana colaboração estratégica com ele, tornando-nos parte dele no nosso dia-a-dia, enquanto trabalhamos (para quem diferente poderíamos trabalhar?), enquanto consumismo propaganda global disfarçada de informação.

Nos russos, que protestam contra a guerra ou que a apoiam, como nos ocidentais que fazem o mesmo do nosso lado, exprime-se a renovada Guerra Fria, obedecendo voluntariamente aos desejos (e ordens) dos respectivos chefes. Acabar com as possibilidades de reorganização da Guerra Fria, agora entre potencias capitalistas, venha ela a ser ganha pelos EUA ou pela China, implica denunciar a aliança entre as potencias beligerantes e concorrentes na produção da guerra híbrida, isto é, a produção industrial do medo, do ódio, do racismo, do nacionalismo, do patriarcalismo, o recuo nas preocupações ambientais e democráticas, o avanço do militarismo na política, a organização de cruzadas contra islâmicos fundamentalistas, o Putin, e outras figuras que possam ser utilizadas e deitadas fora nos seus jogos estratégicos.

Os povos europeus mostraram que podem impor a solidariedade com os refugiados, o que continua a ser excepcional. Agora há que enfrentar o império de forma híbrida: denunciar a propaganda imperial de ambos os lados e o militarismo que os une. Compreender o que cada um pode fazer, no seu dia-a-dia, a começar por reconhecer que a guerra da Ucrânia já está entre nós, no dia-a-dia que urge alterar.

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2 respostas

  1. Embora reconheça as boas intenções do António, bem como alguns dos pontos focados, não acompanho grande parte do seu pensamento. Começando pelo princípio, creio que a distinção pretendida mas nunca demonstrada entre imperialismo e capitalismo, não colhe. Ainda que não sejam sinónimos, é facto que todos os grandes países capitalistas (com destaque para os EUA) são e sempre foram imperialistas, ou seja, procuraram e procuram alargar a sua dominação e exploração, dando cumprimento à pulsão capitalista de crescer até ao infinito, infiltrando-se em todos os domínios da vida, como se exemplifica na Guerra de 5ª Geração = 5GW. Temos portanto que o imperialismo é o braço armado dos grandes capitalistas e suas corporações. O caso da guerra na Ucrânia é um bom exemplo de confronto NATO-Rússia por interpostas forças. Discordo em absoluto quando o António afirma ser o capitalismo o único jogo possível, embora admita ser essa a posição das esquerdas integradas no sistema.
    Se reconhecemos que o sistema se está a desmoronar por todos os lados, então a nossa única hipótese nunca pode ser reconstruí-lo, mas desenvolver algo novo a partir das bases e já há inúmeros exemplos de vias desse tipo a funcionar. Claro que o apelo final à resistência é muito bem vindo, mas está fora de questão a colocação do problema a nível individual. O indivíduo isolado, por mais consciente e activo pode muito pouco. Nada substitui as iniciativas colectivas dos cidadãos e comunidades em movimento. Denunciar sempre a propaganda rasteira dos dois lados? Evidentemente, até porque neste como noutros problemas, não existem apenas dois lados e o ataque ao manicaísmo cretino é essencial.

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