A Abstenção Estratosférica é Culpa dos Políticos e do Estado – o Resto é Conversa da Treta

Vou votar quase sempre. Faço-o por escolha pessoal e sim, por sentido de responsabilidade cívica. Mas percebo completamente quando as pessoas escolhem abster-se. Posso dizer que até sinto alguma empatia com quem se abstém. E fico com algum nojo dos comentários condescendentes e arrogantes que culpam exclusivamente as pessoas comuns pela subida contínua da abstenção.

Será mesmo que abstenção está a subir porque as pessoas são “alienadas”, “irresponsáveis” e “ignorantes”? Ou será que a maior parte da culpa é dos políticos e do próprio Estado? A primeira resposta culpa as pessoas comuns que exercem relativamente pouco poder sobre o verdadeiro funcionamento da sociedade, enquanto que a segunda resposta culpa quem tem mais poder. Isto em si já diz muito sobre qual será a resposta mais adequada.

Os resultados preliminares das eleições Autárquicas de 2021 em Portugal apontam para níveis de abstenção altíssimos, potencialmente os mais altos de sempre. Com o sem máximo histórico, a abstenção terá sido alta, muito alta, demasiado alta, preocupantemente alta. Ninguém disputa que seria melhor ter mais participação. Mas resta saber- de quem é a culpa, e sobretudo, como podemos resolver este grande problema?

Uma imagem da reportagem da RTP sobre o histórico da Abstenção para as eleições autárquicas em Portugal

Obviamente, os comentadores do regime do costume estão a fazer análises altamente condescendentes e arrogantes, culpando somente as pessoas comuns pela subida da abstenção. A culpa só pode ser das pessoas, certo? Não. Existem elementos óbvios que potenciam a abstenção e a alienação crescente das pessoas das estruturas ditas “democráticas”. Aqui estão alguns deles:

  • Diminuição dos poderes que os Estados têm, em benefício de sociedades secretas e grandes empresas
  • A quantidade de políticas feitas por executivos não eleitos e portanto que estão fora da esfera dita “democrática” (desde o Banco Europeu à Comissão Europeia)
  • As consecutivas traições e incapacidade dos eleitores de retirar o seu voto quando as promessas são quebradas
  • As relativas poucas diferenças entre os partidos, senão nos seus programas e nas suas promessas, pelo menos nas suas ações e políticas efetivas
  • A óbvia hipocrisia dos patetas que se pavoneiam pelo país durante as campanhas eleitorais à procura de votos, com um sorriso amarelo e falso, para depois o dia a seguir voltarem inevitavelmente à arrogância e prepotência do costume
Cada vez mais pessoas claramente pensam que o seu voto é relativamente inútil, e graça à maneira como o Estado se organiza, infelizmente não deixam de ter bastante razão

Querem menos abstenção? Dêm mais poder a quem vota e introduzam mecanismos para penalizar e destituir com quem goza com os eleitores e trai consistentemente a confiança de quem vota. Querem mais pessoas a votar? Expandam o alcance das estruturas sob a alçada da democracia, diminuam a corrupção, introduzam mecanismos de participação política ativa durante todo o ano, não somente em eleições pontuais. Aumentem a transparência e reduzam a influência dos grupos obscuros do costume. Vai funcionar certamente melhor do que as queixinhas estéreis e inconsequentes do costume que culpam todos menos os mais culpados- os políticos e o Estado.

Como tive a oportunidade de dizer durante uma entrevista para a Vice Portugal sobre a a relação dos jovens com o voto:

“A subida da abstenção está, para mim, directamente ligada com a transferência do poder para grupos secretos e agentes privados. Digo isto, relativamente ao voto… é o resultado natural de como a nossa “democracia” é construída. Dizem-nos que podemos e devemos afunilar toda a nossa vontade política para o voto e que, assim, podemos mudar o Mundo e é mentira. E todos sabem que é mentira.

A sobrevivência de quase todos os sistemas políticos, infelizmente, depende da alienação e da estupidificação das pessoas. É preciso parar de culpar somente, por exemplo, os jovens, e começar a identificar os programas de engenharia social que fazem com que eles tenham tendência a afastar-se. Nos nossos tempos, a indústria que visa distrair as pessoas é imensa e muito eficaz…

Eu, sinceramente, não vou ser aquele que vai dizer a um jovem “vai votar, porque assim vais mudar o Mundo”. Seria desonesto. Eu voto. Mas, percebo quem não o faz. Muitas pessoas sentem-se traídas, sabem que as promessas eleitorais não são cumpridas. Que o seu voto muitas vezes vai alimentar projectos de vaidades, vai aumentar egos e que não vamos ter influência real sobre aqueles que elegemos.”

Última nota. Se o teu comentário político culpa sempre as pessoas comuns em vez de fiscalizar as ações da minoria que tem mais poder, talvez seja altura de reveres tanto os teus princípios como as tuas orientações políticas.

 

João Silva Jordão

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